3.11.20

Desconfi(n)ados

 Minha irmã me mandou ir meditar e eu quase a mandei ir à merda. Não é para tanto. Até porque, se a merda estiver a mais de um quilometro, eu não posso ir, sob pena de uma multa de 130-blaus de macrons. E eu não faço macromê suficiente para esse ir e vir todo. Hoje de manhã já meditei sobre esvaziamento e respirei na seriedade da busca da paz, sentindo o vai e vem do ar. Sem obrigatoriedade de ter que preencher declaração assinada (com data e hora especificadas), meu gás carbônico ficou passeando pra lá e pra cá, operação com o escopo bem definido de manutenção de órgãos. A máquina não pode parar, nem reparar, tem que respirar no fundo do poço e estacionar seguir em frente. Olha, um pouco de pessimismo e reclamação não vai fazer mal a ninguém. Paris está aí com seus residentes de boca torcida e de nariz de nojo, mas todo mundo gosta de Paris. É chique ser insuportável. Voilà voilà. A idade não traz só flacidez, mas experiência - que deve ser projetada como verdades absolutas sem nenhum pacto com argumentos racionais. Eu estou irritada? Certo. E me acalmar para quê, se daqui a três minutos já encosta um outro aborrecimento? Fica logo na potência do café requentado: perigoso, agitado, ruim, mas presente. Estou sem outras performances disponíveis. Já fui resignada, grata, preguiçosa, produtiva, triste. Agora estou virada no Pato Fu metal – uma mistura de melancolia, chatice e gritaria. Que diferença faz para você? Se eu fico sozinha mesmo escutando música folk e escrevendo inutilidades tese.

Um dia isso tudo vai passar, mas agora estou achando uma situação chata, persistente e esse vírus um ridículo. Pega sua oportunidade de superação e come com corn flakes, quero saber disso não. Gente, reclamar é preciso. Legítimo e gostoso. E outra. Eu sou contra você ser contra mim. Lembre-se Paris.

3.9.20

Áudio

Recebi sua mensagem. Você disse para eu buscar um profissional e foi justamente disso que me livrei, para tratar minha dor de forma diferente. Começar a descobrir o que minha carne me ensina. E por aqui senti ecoar um som de flauta e de árvores laranjas. Voltei a pensar nas minhas terras e nas pedras que juntava na gaveta do subúrbio do Rio. Meu amor, o equilíbrio só é real se há um desafio de balanço, estou aqui experimentando os meus. Quero poder dizer a verdade por trás do sorriso que colei no meu rosto, porque tenho para mim que muitos sentem esses tufões no peito. Mas não sabem como eles chamam ou se eles ficam rodando lá para sempre. Antes minha especialidade era de gerenciar tufões alheios e sobreviver, agora posso ter minha próprias desrazões e a liberdade, às vezes, dá um falso atrapalho. A gente cata um cavaco e vai correndo pra não precisar cair. Acelerei. E o que, para os outros é um processo de queda, para mim é a esperança de me realocar de pé: os braços girando para apanhar o ar e os olhos pinçando o céu – a gente se agarra no que imagina bem. Você sabe. Não é do meu feitio desmoronar, como um prédio que afunda e peida poeiras por todo lado. Se eu tivesse que ser um imóvel abatido, eu iria atirar meteoros que voariam no Pacífico e que confundiria os aliens que tiveram a mesma ideia, mas que não se organizaram o suficiente. Quando todo mundo pensasse que iria cair pro lado e esmagar um carrinho de pipoca, o pipoqueiro e um gato, eu iria produzir uma grande (enorme) quantidade algodão doce tipo 1 (utilizado para preenchimentos). Todos meus quebradinhos iriam ficar melados ao toque de mão com saliva e para substituir o material teríamos que levar bebês-babantes para comer as partes a serem substituídas.

Por isso, não se preocupe já tenho tudo pensado e organizado da forma caótica que é o gostoso da vida. Não posso negar que hoje sonhei que capotei de carro, nessa preguiça que eu ando, copiei a cena de um filme. Depois copiei a trama de um seriado e virei lutadora com maiôs da década de 80. Ou seja, não quebrei nadinha e fui lutar, antes de nascer – ou um pouquinho depois. Por isso, não se preocupe, sou boa de criar enredos fantásticos: vou bolar uma saída que também sirva de entrada. Hoje coloquei quatro anéis, uma pulseira do Marrocos e um batom dichavado pela máscara. Quer dizer. Sont plutôt des bonnes nouvelles, non ? Xuibiãnlá.

31.8.20

Alpinismo

Hoje tive uma saudade de escrever para os personagens que inventamos e amamos de maneira misturada. Hoje meu coração acelerou na aula de yoga e me veio um medo do pânico. Fiquei em pé, como se tivesse sido a aula à me levar à uma pausa, mas foi a vida, ou aquilo que eu ficava lembrando da vida sem parar, que me fez parar. Bebi a água quente da minha garrafa olhando para o céu, com os olhos bem para cima, de quem precisa falar com Deus e se segurar nas nuvens. E implorei silenciosamente que eu e Ele me ajudassem. Deitamos todos de bruços com a bochecha direita no chão, meu coração continuava alucinado. De vez em quando, antes de dormir, meu coração tem galopado e pensar nisso me dá uma secura no maxilar. Meus pensamentos ficam como pipas enlouquecidas do subúrbio, com excitação e descidas espirais por movimentos falsos.

Eu nunca aprendi a empinar a pipa sozinha, meu pai colocava no alto. Quando era ele a segurar a pipa, eu puxava para um lado para o outro, mas ela sempre virava de ponta cabeça e acertava o chão com brutalidade. O bico mais longo de quina na calçada quebrada e a rabiola atônita se embolava num ou noutro objeto proibido.

Meu pai é cheio de defeitos, mas tem qualidades que sempre me ajudaram a viver melhor e mais feliz. Meu pai pegava a pipa, consertava o que precisava ser consertado e tentávamos de novo. Até ele ou eu cansarmos. Eu tinha impressão de que só parávamos porque eu tentaria mais depois. Falhar era só uma etapa para aprender. Eu não aprendi a soltar pipa, nem a rodar um pião sozinha, nem fazer embaixadinha com laranjas (nem com bola). Mas eu aprendi a tabuada, eu aprendi a nadar cada vez mais longe, eu aprendi a contar estórias, a fazer com o que tenho e a ser criativa na falta.

Quando meu coração acelerou hoje, eu pensei em duas amigas que tiveram crise de pânico. Uma delas me disse que entrou no hospital de cadeiras de rodas porque não conseguia nem andar. Eu pensei que aquele coração acelerado era um convite do medo, resolvi declinar. Consegui declinar. Sai na rua de mãos dadas com minhas amigas que moram há mais de 3 mil quilômetros, agradeci por elas terem compartilhado a experiência delas comigo, desde as mais físicas (o momento que a crise vinha no corpo), até o caminho de saída (os pensamentos, as decisões, as mudanças). Peguei um atalho, que passava pelo amor dessas pessoas. Lembrei da mão gordinha do meu pai e na liberação que minha mãe me promove. E me aninhei na paz.

Se um dia você também ficar com muito medo de ter medo e seu coração acelerar, eu tenho um conselho. Ele se acelera até vir pulsar na garganta, depois ele ecoa no tronco como se você só existisse para aquelas câmaras de sangue. Nesse momento, que dura alguns segundos infinitos, aceite o seu medo (da morte, da vida, do trabalho, do desemprego). E eu te juro que seu corpo se recoloca como seu. Eu gosto de esticar minha alma nessas horas, numa longa expiração. E aquele monstro se dissolve. Todos teremos visitas dos nossos monstros, olhe bem para ele e tente aprender a não mais se assustar. Raramente eu quebrei uma pipa numa daquelas quedas, mas, uma coisa que eu aprendi bem, foi consertá-las.

24.8.20

Colosso

Quando eu fui escrever “amor”, minha caneta se dissolveu e dezenas de milhares de litros de tinta rosa caíram no meu bloco de anotações. As letras ficaram borradas e fantasmagóricas como uma espécie de mal presságio. Fiquei com medo e acendi uma vela com perfume de bananeiras. Fiquei com medo da vela botar fogo na minha casa e nas minhas coisas e nas coisas dos outros e no prédio. Fiquei com medo de incendiar a cidade e. Fiquei com medo de incendiar a região onde moro, então. Fiquei com medo de acabar com o continente europeu e queimar diversas universidades, então coloquei a vela num copo. O copo por sua vez tinha um desenho de uma mulher com blusa amarela que fica com a cabeça de lado, pro lado esquerdo e com paisagens de cana-de-açúcar - numas cores muito lindas mesmo e escrito “rhum blanc, Martinique”. Esse copo não é meu, por várias razões. Dentre elas é que pertenceu à uma família de franceses que doaram pro seu filho, os copos, e dentre outras coisas que eu uso do filho deles, eu uso esse copo. Eu gostava muito também de usar roupas e acessórios dos meus familiares, mas eu tenho evitado porque dá muita saudade - moramos longe e meu coração não aceita bem.

Talvez você esteja se perguntando por que eu estava escrevendo “amor” com uma caneta rosa estourada no meio de uma pandemia de um vírus de bases chinesas. Da minha parte, não sinto vontade de me alongar nesse assunto e acho que é o menor dos seus problemas. Eu estou em busca de novos leitores, pois busco validação e sucesso pessoal. Financeiramente, ganho meu dinheiro vendendo pães – que não tem nada a ver com aquele papo de “cada dia”, pois trabalho em escalas muito variadas. O contexto histórico-social do mundo atual atrapalhou meus sonhos de ser escritora de ficção. Verdadeiramente algumas cenas apocalípticas fazem parte do meu dia-a-dia e os discursos alucinados de alguns políticos aumentaram muito a competição no reino da fantasia. Sempre pensei que iria enriquecer assim, com uma série de livros com palavras mágicas, mas. Hoje fui entrevistada na rua. A menina implorou para eu falar como era minha experiência de andar de bicicleta na cidade e não precisava nem da metade daquele desespero, porque eu gosto de falar. A situação ficou delicada quando ela me perguntou quanto tempo eu gastava para ir para o trabalho e eu disse que ia mais para a biblioteca e que isso era rápido. Ela parou o vídeo e me olhou de lado, igual a boneca desenhada no copo, e perguntou: “quanto tempo para o trabalho?”. Meu corpo ficou quente porque eu trabalho mais é sentada de casa e a foto no meu computador é o cabelo da minha mãe. Não sou tão profissional. Olhei para ela, pensando nos meus arquivos pdf e na minha vida desmaterializada. Vi uma coisa loira brilhando, ela tinha um buço dourado muito espesso, fiquei com vergonha da minha vontade de querer olhar de novo. Pela glória de um poder do divino social, eu lembrei que trabalho na padaria, por escalas. Falei “35 minutos” e achei um tempo honesto – tem uma subida grande e eu paro no sinal para descansar, isso gera um impacto na minha performance.

Fiquei pensando como seria engraçado se eu cometesse um crime e ficasse famosa. Ela teria meu vídeo e iria se promover, talvez as vendas de bicicleta sofressem. Fora isso não tive mais ideias da utilidade do meu vídeo - uma vez que ela fazia perguntas que juntas direcionavam para uma conclusão inevitável: a opinião dela. Se você for no júri do mestrado dela, já sabe o contexto em que tudo aconteceu. De resto, é isso mesmo, só queria contar o lance da caneta porque achei curioso.

26.10.16

Desocupação

É pesado imaginar como nosso corpo pode se tornar um depósito de prazeres, mas, necessariamente, um paraíso a ser perdido. Uma relação superficial e deformada que se assemelha a uma mordida no sorvete: arriscamos experimentar uma hipersensibilidade pelo gozo de abocanhar um pedaço maior. Nunca mordi sorvete. Não gosto. Mas sempre deliciei em ser o gelato.

Um dia após outro, construo conclusões provisórias, que sejam absolutas. Como que para redimensionar o caos em porções absorvíveis. Admito que essa segurança que me forneço é um conforto paras minhas costas cansadas. Sentar de mochila no banco, rasgar uma bolinha de algodão. Não é muito, e talvez não o suficiente, mas já é alguma coisa.

Tenho perdido o apetite pelas pessoas. O deslumbramento ora dura pouco, ora demora demais a acontecer. Como comer plástico com pitadinhas de sal. Sem digestão possível, vai embora sem deixar nada, intacto e intocável. Meu apetite gosta de se alimentar, de triturar e sorver. Só vejo cabelos e roupas. Poucos olhos e quase nada de alma. Fico sem fome.

Esqueci minha escova de dentes reserva numa casa de uma noite, meu chinelo e um rascunho. Imagino se não foi um abandono. A escova era velha, o chinelo inútil no inverno e o rascunho bobo e feio. Deixei os outros descartarem meu lixo. Não ouso mudar de direção nem mesmo para me desembaraçar. Todo o resto tomba de mim e fica estirado no caminho passado, como um obstáculo. Não me siga, eu prossigo.

Quando falo de amores moribundos, falo daquilo que eu mesma já vivi. Mas que se resignificou. Estou incapaz de amar. Sinto o cheiro desse entulhamento, que fica agonizando, muito embora sejam pedras mortas. Observo, sentada na minha própria barriga, minha dificuldade de respirar. Não faz mal, esse personagem tem mesmo que expirar. Era muito véu cintilante para pouco vento. Os tempos são outros.

A consciência exata de que o amor morreu me traz um alívio absurdo. Um terreno limpo e pisoteado. Mas limpo. Descompactar é só uma questão de remexer para lá e para cá. Soltar a terra. Ressaltar um novo chão. Seria um terreno-caminho ou um terreno-lar? Ponto-fixo ou ponto de partida? Olhando por alto, não consigo discernir.

Porém, ainda que tenha me livrado dos chinelos, ando carregando uma meia dúzia de amores defuntos e não sei muito bem qual o procedimento. Nem da simpatia, nem do mau agouro. Enfiei-os todos num saco de batatas e arrastei até aqui – e agora. É leve, mas de um volume enorme: às vezes, tapa-me a visão. Não cabe na cabeça. Não entra no bolso, nem entre um braço e outro. Levando em consideração que todos foram muito caros, quero uma finitude que agregue valor à experiência.

É verdade que esse pacote mais parece um elefante de porcelana gigante daquelas que só é lícito às tias-avós possuírem. Impressionantes, meio cafonas e lascadas. Preciso de um ritual de passagem. A questão é: o que fazer com amores mortos? Desfalece-los? Jamais!

Rascunhos, escovas e chinelos. Bem, fico assim meio sem graça, mas vou deixar meu mausoléu aqui. Não, Repara a falta de jeito. Repara bem: vou abstrair esses cadáveres. Abandono de forma literal, é o abc da vida.
De a-z: Fim.

Fim. Fim. (só para garantir)

19.7.16

Dois : Liz

Paris é um frio dos infernos e de nada serve o rio Seine. Ela mete a mão nos bolsos de seu casaco verde musgo em busca do isqueiro. O frio faz seus ossos trepidarem. Resoluta, com seu queixo quadrado e lábios finos, puxa o cigarro, pendura na boca ressecada e produz uma chama em frente aos olhos. Como que enfrentando o fogo, como que tragando a essência do mundo.

Liz se afastou do grupo, em parte para não levar fumaça, em parte para não levar o grupo. Naquele exercício solitário de reflexão e vício, Matthieu se aproxima. Naquela altura, não sabíamos seu nome. Eu, como narradora, só poderia relatar que ele usava uma calça justa ao estilo francês, uma jaqueta de couro ao estilo argentino, uma pulseira ao estilo peruano e uma cara bonita ao estilo universal.

-Tu as feu? – ele perguntou, como quem anda de pijamas no Coliseu.

Ela disse que tinha fogo e entregou um isqueiro bic cor de rosa que trouxe do Brasil. Ela fumava como quem sobrevivia de uma catástrofe, traumatizada, com os cotovelos presos nos quadris, com um suspiro de fumaça lento e sofrido. Ela era dos trópicos de Capricórnio. Ele era do norte da França, com ancestral do pé grande glacial, fumava com um cabelo loiro que reluzia. Caía no olho e ele ficava sem ver. Um cabelo cintilante, daqueles que brilham no escuro. Cabelo, cabelo? Mas e os olhos? Mesmo como narradora não dou conta de lembrar a cor dos olhos dele. Eram meigos, meio verdes, tombados no final. Olhos de quem já viu o amor. Olhos de quem já riu. Mas ali, eram olhos para os barcos estéreis do Sena.

As luzes eram alaranjadas, a conversa dos outros virou um bruit e eles foram ficando cada vez mais a sós. Ela sentou num pequeno pilar de ferro, que servia para a ancoragem dos barcos. Ele resolveu que era o momento de colocar os nós dos dedos na cintura. E fizeram companhia um para o outro em novembro. Num dia qualquer que só Deus tem registro.

Inesperadamente, Matthieu pousou as mãos sobre a cabeça de Liz. Ela se encostou nas pernas dele, segurou suas panturrilhas e esticou as próprias pernas. Ele agachou e nos ouvidos de Liz disse: Vem (em francês não traduzível). Ela foi. Foi parar no parquinho alpinista das crianças. Que fica do lado direito do Sena, antes da Ponte Alexandre III, onde há pelo menos duas fontes de água gasosa. O chão parece de asfalto mas é meio molenga.  Ele a sentou num brinquedo indecifrável para os latinos, segurou nos seus joelhos. Ela tinha uma franja recém cortada em Montmartre e veias minúsculas nas bochechas. Ele olhou. E olhou.


E ninguém sabe o que aconteceu depois. 

18.7.16

Um

Corra, Hannah. De traz em frente, de frente, para, trás.

Acordei ao som de uma britadeira intermitente, sentia meu ventre doer. As cólicas mensais haviam começado. Abro os olhos e vejo uma coruja de pelúcia me encarando com olhos amarelos purpurinados. Ainda é cedo, mas a cidade já está em obras. Tomo leite. Vitaminas em cápsulas. Mais leite. Arrumo a casa, com esmero. Vejo a panela que ariei, praticamente limpa. Reverencio meu desengordurante “BANG”. Eu emagreci, a despeito de todo chocolate e quinquilharias que comi na semana passada. Acho um pregador de roupa de madeira, uso para prender meu cabelo em coque. Lembro da minha mãe. Guardo a louça. Guardo meus anéis. Dobro minhas calcinhas. O céu está azul. Minhas pernas estão doloridas.

Sento em meu tapete cinza felpudo. Fecho os olhos e jogo minha testa para o teto. Só penso em amores geométricos. Há três dias penso nisso. Na academia, pensei no triângulo isósceles e meu apreço por seus dois ângulos iguais. Quando pequena, adorava meu caderno de desenhos geométricos. Tinha um compasso que a ponta afundava a despeito da infinidade de gambiarras desenvolvidas para tentar consertá-lo.

Não entendo porque o triângulo equilátero não me mobilizava da mesma maneira. De qualquer forma, entendi perfeitamente que amores são e sempre serão geométricos. Mas não sei explicar.

No começo, achava que amávamos em reta, um sentimento que se expandia para os dois lados, no infinito e, para mim, na unidade infinita do tempo: eterno. Um amor eterno, infinito, contínuo e fluido.

A vida picotou um pouco minhas retas. Fiquei um tanto segmentada. Paixões de verão. Amizades do curso de inglês, o prazer de estar no mar. E, de uma hora para outra, parecia que eu vivia pequenos segmentos que poderiam se sobrepor, se cruzar ou se distanciar, intervalado por imensos vazios. Tudo tinha início e fim evidentes.

Sei que círculos e hexágonos também são geométricos, mesmo o rosto de muitas atrizes. Mas não quero pensar nisso.

É mais seguro amar em segmento de reta. Entretanto, é do precipício que sentimos as alturas. A experiência me ajudou a manejar melhor meus pedaços, acabei por construir uma aptidão : o recorte póstumo e o nó. Quando uma relação se exaure, não deixo as sensações expostas. Como linhas feitas em tranças, corto seu final desgastado e podre, amarro o fim, para que a estória não se desmanche. Tão importante quanto amar é aproveitar a memória do amor. Meus ex-amores são frescos e conservadões.

Fico irritada em pensar no que você está pensando e na diminuta possibilidade de não concordar com meus argumentos. Bem, muitas imagens são possíveis para representar o amor, pois ele é elástico como uma fumaça. Particularmente, abri um novo plano e optei pela semirreta. Quero um recomeço, mas anseio por um futuro. É tempo de semirretas na minha folha quadriculada. Não se embanane com minhas metáforas. Assimile o que ofereço e tente entender.

Assimile o que ofereço e tente entender. Às vezes, 
não dá.

Os tapetes da cozinha estão manchados de azul. Tenho que limpar meu sapato e fazer legumes no forno.

4.7.16

Bonita

Bonita, me lambe esse céu da boca. Vem te esgueirando sinuosa dos meus pés até meus olhos. Quero te encarar, te encarnar devagar e terno. Engole meus gemidos e aceita o que me falta. Toma o que sobeja, mergulha no que me resta.

Bonita, me veste totalmente nu. Liso e quente. Uma flor balançando num campo de verão. Deixa o sol pousar na tua nuca e te iluminar a pele. Deixa ele marcar teu rosto com a idade que te pertence.

Bonita, lembra daquele rio morno da Bahia. Lembra dos meus beijos e da minha voz.  Quero fazer coral com outros, saudar sua existência, que perdi. Ah, bonita, balança naquelas memórias, se empoleira no gosto que tem amor. Tira essa esperança do estômago, volta com ela pro coração. De lá, ele pulsa melhor, de lá, pra alimentar a alma.


Bonita, já te vi sonhar. Descola o olhar do chão. Encara como caminho o que os seus passos perseguem.

27.4.16

Antes de dormir

Tenho minhas unhas rosas, mal pintadas, mal limpas. Tenho um coração encardido de tantos amores malpassados. Tenho um peito aberto de vazio, cheio de enxertos e carcaças. Vivi entubada em mim mesma, encolhida nos meus pés, longeando da cabeça. Não quero pensar. Não quero sentir. Quero caminhar. Andar não desdiz ninguém. Ir não destrona: afasta e lambe-se o silêncio dos passos.

Vivo a construir pequenos relatórios mentirosos, do que fiz e do que sigo sendo. Eu estou, sem gerúndios, num presente bem marcado. Estou pétalas voando para o chão. Estou neve pouca que se dissipa pelo ar. O que congela, mas não tomba. O que se esfrega no meio e se alonga. Sem pressa, sem alvo. Sem lugar.

Vivo como ser etéreo inventado em outra linguagem, engolido por nada. Transito impune pelas ruas deles. Como a comida, vejo seus olhos, sorvo seus cabelos. Me esgueiro entre as frestas e aspiro como amam, o que sentem, o que soam. Faço igual, faço diferente. Engulo tudo, mastigo e cuspo.

Como morder borracha, como chupar capim, como lamber o mel, como beijar a água. Como me derreter em momentâneas sensações de solidão desamparada, para me derramar na delícia de estar só.

Sou calma e lago. Um sábio de bochechas caídas. Sou bruxa fazendo poções para seus gatos. Sou o contentamento do instável. Sou a beleza da brisa no mar. Sou o último pensamento antes de dormir. Sou à Deus.

25.2.16

Uma paixão, um amor, um engano

Olhei do alto da praça e gostei do que vi. Um cabelo meio enrolado e um jeito pausado e forte. Dentes absolutamente brancos. Tocava uma música qualquer dos Titãs. Ele olhou para mim, eu sorri.

Era de tarde e minha amiga estava ficando com rapaz vestido de pescador. Eu ia seguindo o bloco de longe, quando vi uma peruca brilhante, ele andava pela calçada e eu vinha atrás. Observando. Passei por ele e fiz uma piada qualquer, a resposta me divertiu enormemente.

Aos poucos, foi subindo a escada. A cada progresso, olhava para ver minha reação. Eu sorria. Naquela época só sabia sorrir. Ele sumiu do meu campo de visão para aparecer, alguns minutos depois, do meu lado. Olhei de perto. Perdi o fôlego.

Fui conversando, para ver até onde iria a sua criatividade. Sem limites. Decidi que aquilo era ótimo e o beijei. Ele tinha um tênis com umas partes verdes, daqueles de corrida e só falava com a voz do personagem que havia inventado. Perguntei qual era o nome dele. Disse que não tinha nome.

Ele não conseguia falar nada. Enfiando e tirando as mãos de dentro do bolso, como se ali dentro pudesse encontrar qualquer punhado de palavras que o ajudasse. Sentamos em um banquinho. Ele já tinha me visto antes na cidade. Nos beijamos.

Ele também não tinha profissão, porque essas coisas não pertencem à magia do carnaval. Até o beijo dele era faceiro. No meio daquele barulho todo, sua gentileza vinha como um passarinho pulando no quintal. Sem que ninguém espere, beliscando um pedacinho de qualquer coisa.

O cantor do bar passou por nós, ressentido. Sozinho, carregando o violão. Ele me beijava como uma onda, como que em semicírculos. Num símbolo do infinito. Uma nuvem passou bem baixa. Olhamos fascinados. Ele me disse: “estou apaixonado por você”. Meu corpo flutuava.

Fomos andando na direção da música, me deu a mão e, por uma razão que me escapa, me senti segura. Comprei uma pipoca e ele estava faminto. Foi comendo naquele contentamento que só os bêbados alcançam. Um amigo dele apareceu. Um amigo dele foi embora. Fiz xixi atrás da banca, enquanto ele vigiava os intrusos. Fui embora sem saber como chama-lo.

A memória fica como o carinho de bigode de gato. Umas cócegas, leves e sem dimensão exata. Apaixonar-se. Amar e desarmar-se. Não há engano. Há esperança.

15.2.16

Carnaval

Tem horas que a vida dá um intervalo e surge um imenso silêncio, cessa toda a percussão e fica o bumbo, ecoando, gravíssimo. Como se os movimentos oscilassem: devagar eu, rápido o mundo; eu voraz, o mundo cochilando. Um bum bo.

Vamos nos calcificando e criando ossos até nas nossas partes mais moles, uma tentativa de gerar estrutura, eu acho, para enfrentarmos os obstáculos menos liquefeitos e esparramados. A doçura e a inocência se fundem num sentimento quase triste: nostalgia.

Aprendi que as experiências nos percorrem e vão deixando seu espólio em nós. Como se fôssemos um rio, onde a água que nos atravessa fosse aquilo que vivemos. Às vezes, arrancam nossas barragens, outras, enriquecem nosso solo. Deixam lixo ou mudam nosso curso: podemos virar lagoa ou desembocar no mar. A vida é um constante movimento de inundação.

Uma importante conquista foi perceber que tenho domínio sobre o meu leito, quase nada é irresistível. Algumas mudanças são difíceis de remanejar, mas com persistência, sempre é possível se aproximar do que éramos antes, na nossa antiga geografia.

A questão é: queremos ser os mesmos? Queremos negar sistematicamente todas as alterações que nos alcançaram?

É desconfortável mudar de forma, mas nem todo desconforto é ruim. Exige, entretanto, mais diligência, teremos que reconhecer nossas novas fronteiras e reinterpretar nossos caminhos. Sonhos desaparecem, outros brotam. A projeção sobre o futuro não alcançado não é um aborto. Algo que morreu. O que não aconteceu precisa deixar de existir para dar espaço àquilo que vai surgir.


Vez por outra temos que esganar uns fantasmas, no escuro mesmo, quando eles vêm nos assolar. Uma parte do novo é chamada medo. Como uma pedra de argila, com mãos insistentes e com água disponível. Desconstruindo as armadilhas e dando novas serventias ao nosso material emocional. Precisamos cuidar de nós mesmos, tatear nossos pensamentos, cuidar das feridas. Semear brotinhos de alegria. Regar e regar. Regar. É preciso se esticar até o último pedacinho do dedo para alcançar a esperança. E pega-la.

16.1.16

Sempre e só

Algumas noites acordo, assustada em uma casa estranha. Fico com um pavor: estou na França. O pensamento fica girando na minha mente sonâmbula. Meu coração afunda dentro de mim: estou sozinha.

A saudade não se descola. Alguns dias é como um vento gelado, cortante e incômodo, vai entrando por entre as brechas e me tira todo o aconchego. Há outros, porém, que a saudade vem como um beijo quente e macio, afagando os meus cabelos e me fazendo dormir em paz.

De qualquer maneira, o infinitivo do amar é sofrer.

Sofro de bom grado, porque o que me dói é o sobejar. É a consciência exata de que amo muito e sou muito amada. Sofro porque carrego um tesouro maior que eu mesma. É um mar com pedras cortantes no fundo. Nado para fluir, sobretudo, para sobreviver.

A solidão, aos poucos, constrói morada mim. Adornada de hábitos curiosos. Prazeres miudinhos e graciosos. Olhar o morango de perto, estudar o cadarço do sapato, sorrir para o dia. Os objetos ficam dotados de personalidade. A almofada é minha “fofinha”; a luva mais quente, “a poderosa”; as cobertas são “a galera”. Mas sinto falta mesmo é da minha irmã entrando no quarto com o botão da calça aberto, comendo banana, com um pão mão. De fazer cinco tapiocas. De sentar no sofá e ter o colo do meu pai, do meu irmão sentando em cima da gente e tirando do meu canal, da minha mãe narrando todas atividades do seu dia.

Sinto falta do carnaval que não terei. Das pessoas que mergulharam nesse oceano que nos distancia e me transformaram em passado. Perdi muita coisa nessa travessia. Sei que nem tudo vou ganhar de volta. A vida, às vezes, nos amputa mesmo. A gente cresce para outros lados.

A sensação é como se alguém colocasse a mão na nossa cara: e não podemos ver direito, nem respirar direito, nem falar direito. Fica tudo confuso e atrapalhado. Um ataque improvável. De tanto me debater, consegui libertar o meu rosto para voltar a viver face-a-face.

A alegria aqui repousa nessas vitórias: ver melhor, respirar tranquila e falar corretamente.

Refaço os caminhos para sabe-los bem no dia em que vierem me visitar, faço roteiros intermináveis para que eles nunca precisem ir embora. Meus olhos se abrem e estou no metrô, na rua deserta, no Sena, no café, no bar, de frente pra salada. Vivo entre três mundos: onde os meus queridos ficaram, no que eu estou e no que eu criei.

A alegria aqui repousa nessas vitórias: sorver, sonhar e lutar. Nunca sozinha. Sempre e só.



4.9.15

Da realidade dos fatos

            Certa vez, uma amigo do meu irmão apareceu aqui em casa, tarde da noite para ir no Via Show, a namorada dele, que morava na Serra ou na Região dos Lagos ou longe tipo São Gonçalo, estava na casa dele. Tinha vindo passar o fim de semana com seu amado. Diante da alegação de que iria jogar video game o jovem, ganhou o mundo, com perfume e gel emprestados. O que me inquietava era que ele havia me dito que desta vez estava realmente apaixonado (fato inédito). Resolvi inquiri-lo: “. Mas, garoto, você não disse que gostava dessa menina?!”. Ao que ele pensou, pensou e me respondeu: “E eu gosto! Só que gosto mais de mim!”. Gargalhei.

            Achei esse argumento de uma honestidade ímpar, tanto para ele mesmo quanto para o interlocutor, no caso eu. Não tanto para a donzela, mas, vá lá, nem toda estória tem final feliz para todos. Aliás, quase nunca tem. A questão é que normalmente escondemos nossos interesses reais e colocamos a culpa no outro pelas nossas escolhas. Nesse caso, a fulana era ótima, gostava sim, mas não queria abrir mão das demandas do ego dele. De qualquer maneira, a resposta foi genial, uma baita auto-sacação.   

            Não tenho a mínima pretensão de explanar uma conduta moral a ser seguida, não sendo comigo, cada qual é livre pra trair quem bem entender. O ponto neuvral seria muito mais a capacidade de auto-compreensão dos indivíduos moderninhos - que está bem afasada. Para além de sermos miméticos, temos que 1) imitar, 2) explanar e 3) colher as curtições. Isso dá um trabalho enorme e arquitetar uma felicidade (nem que seja falsa) nunca foi tão difícil, afinal, temos fiscais. Fiscais do peso, da carreira, do amor, fiscais de mêmes. E quem me dera fosse só o Tio Sam vigiando, pelo menos era da família. Um tera de pessoas inspecionando umas às outras, sem que tenham, ao menos, uma relação próxima. Eu também fofoco virtualmente, não sou santa, nem boba - minha valia é que não sou tão curiosa, então levo bem minha ignorância.

            Lembrei também de uma explicadora que eu tive, que era alto nível. Ela era esperta, versátil e fez uma mini-escolinha no quintal de casa. Alunos de várias séries. Meu sonho era passar no colégio militar, mas não tinha dinheiro para pagar o Curso Martins, então, fiquei aqui no bairro mesmo, por sessenta reais. Passei para FAETEC e fiz diversas coisas em visual basic. Tenho o meu glamour, dá licença.

            Ela trabalhava sem parar. Na minha formatura de oitava série ela foi e eu fiquei estourando de orgulho. Ganhei uma medalha de melhores notas, achei tudo o máximo. Sobretudo vê-la de cabelo penteado, com roupa de sair. Isso tomou uma dimensão tão grande dentro de mim que não lembro se meus pais foram. Ela era minha mestre, que sabia todas as matérias e me explicava tudo o que não conseguia entender. E há até poucos meses eu tinha todo o material que ela havia confeccionado para mim naquele ano. Guardei alguns favoritos e o resto deixei ir.

 Ao contrário do rapaz do começo do texto, a Tamar colocava todo mundo a sua frente. Os pais, os sobrinhos, irmãos. Ela cuidava de tudo, até da limpeza do coco dos cachorros. Morreu uns dois anos depois da minha oitava série, um negócio assim. Teve um infarto e pronto. Fechem os livros, esvaziem as cadeiras. A filhinha dela era mais nova, devia ter uns 10 anos. Não deve ter passado no colégio militar também, ficou órfã (o pai era distante ou não existia).

            Toda vez que passo em alguma prova, uma coisa bem difícil, eu lembro dela, nunca ninguém confiou tanto na minha inteligência. Eu chegava com um problema de matemática sem solução, muito angustiada, ela olhava e me dava uma bronca: “Não quero ouvir eu não sei. Você não fez porque você não quer. Quando quer, resolve.” E eu resolvia. Ela me ensinou a ser persistente, como não conseguia confiar em mim mesma, confiava na palavra dela.

Nos últimos dias, fiquei imaginando batendo na porta dela e contando que passei no vestibular, que passei na prova pra tirar habilitação (que sufoco!), passei na prova do mestrado, na prova do emprego que eu queria. Queria contar que já corri 10km, que já subi montanha. Iria ser bacana ouvir aquela risada, como se eu estivesse fazendo uma estripulia: “você é fogo na roupa!”.

18.8.15

Museu, Musoele

Há algum tempo sinto vontade de escrever qualquer coisa que não está cabendo no vernáculo. Fico agoniada com essa sensação na língua que não consegue virar um sabor, um nome. As palavras sempre me acalentaram e me ajudaram a suportar tanto a tristeza como a alegria.

Mas há dois dias ganhei flores e agora, toda vez que durmo, sonho com elas. Até no cochilo do trem, sonhei. Achei tão bonitas, ganhei dois ramos: ambos roubados do meio da rua numa madrugada. Uma era um Flamboyant, a outra uma orquídea branca. Uma na ida, outra na volta. O que mais me impressionou foi o fato de alguém reconhecer beleza e lhe endereçar, rotineiramente. É comum que eu ande por aí e colha algumas, seguro até se desmancharem nas minhas mãos. Vivo com os bolsos cheios de flores. Aliás, vivia. Por algum motivo, parei de pega-las e passei a apenas contemplar.  Agora me dou contas. Vejo, que, em alguma medida, isso foi um procedimento amplamente adotado por mim. Parei de tocar, usar, consumir. Passei a desejar, me controlar e observar.

De repente, ele passa, arranca e me dá. Nesse momento, percebi duas coisas: eu quero isso e mais, quero receber. Desejo me doar, sem ter nada em troca. E desejo receber, sem nada em troca. Também. Exatamente como aquelas flores, que não podem ser replantadas, possuem sua plenitude no que aparentemente seria uma limitação.

Acredito que o amor, vivenciado em nossas mais diversas relações, vez por outra toma um sopapos e só o tempo pode demonstrar a sua força e resistência. Numa terra aparentemente vazia, nasce uma folhinha: uma semente que brote, basta. A vida pulsa numa voracidade que é difícil reter suas ondas, a gente cai no meio de um redemoinho e entra felicidade pelo nariz, o pé bate na nuca, a boca não dá conta de falar, nem os olhos de ver.

Era como se eu estivesse brincando de estátua, entre os meus queridos. Podia rir, falar entre os dentes, mas não podia me desdobrar e alcançar quem me investigava. O encarregado fazia de tudo para que eu me desmanchasse, mas eu me mantinha imóvel para ganhar. Às vezes, perder é a chave do sucesso, desmontar é o ápice da construção.

O amor se desenvolve como uma nuvem, embalada pelo vento, dormindo e acordando no céu. Eu estiquei minha mão, ele beijou. Tão bom. Quem me dera poder explicar.

13.6.15

Esconde-esconde


A vida é um troço esquisito. É uma espécie de elástico que a gente puxa, puxa, um estilingue que a gente estica com medo de soltar da mão e bater bem no meio da nossa cara. Geralmente sou de desejos bem delimitados: olho bem meu alvo e persisto nos arremessos. Até acertar e alcançar minha satisfação. Mas, nos últimos tempos, estava esticando o elástico só mesmo para não perder a prática. Ia para o meio do meu nada e atirava, pensamentos voando, tiritando: o que querer, pra quê querer. Uma fase boa, embora dolorida, comecei a mirar o intangível, acertar o sol, atingir o horizonte.

E nesse ritmo, de movimentos aparentemente inúteis, aprendi que existe graça no simples ato de tentar. Encontrei um rapazinho com uma barba gigantesca e uns olhinhos brilhantes que não se importava com meu despropósito, nem com minhas dúvidas. Pouco a pouco, aquelas elucubrações solitárias começaram a ser partilhadas. Ele me lembrou que isso que eu vivia se chamava sonhar. E que sonhar era bom. Sem eu perceber, ele foi colocando umas pedrinhas no meu estilingue.

Ontem, para meu completo pavor, ele puxou e puxou e riu e puxou. E me deu. Quando soltei, leviana e para o alto, recebi uma chuva de flores. O arranjo mais bonito estava lá. Com tudo o que era mais precioso. Fiquei tonta de alegria. Minhas angústias se perderam de mim. Boas memórias e gargalhadas. Parecia infinito. Eu já não sabia que bem me arremeteria, que carinho me ampararia primeiro. Fiquei toda feita de nuvem. Paralisada ante minha incapacidade de transmitir a força das minhas emoções.

De noite, pensando com Deus, concluí que ninguém nunca entenderia. Só Ele mesmo para sentir no meu coração: achei uma conchinha e dela consigo ouvir o mar. Mar me quer, velejo: proamar.

27.5.15

Como saber se eu sou um babaca? Etapa I

Minha mãe tem um olhar que eu queria ter: como ela é estrábica, cada olho vai para um canto, dando uma sensação um tanto marciana: a visão de dois mundos ou sei lá. A verdade é que ela é vesga e a cirurgia de correção não foi tão vantajosa assim.

Enfim, queria ter um olhar de marciano igual ao dela, sobretudo quando ela faz cara de “vou pensar sobre o assunto” e um olho vai lá pra cima e o outro fica pro lado, como quem mente. Será que ela mente ou será que ela pensa? Ou será que ela pensa para mentir? Mãe safada, olho X9.

No momento, independente da origem alienígena da Mama, gostaria de expor algumas poucas considerações, que julgo serem vitais para sua vida.

Penso ser certo, justo, correto e ajustável que seu número da sorte seja 4. Agora, se você for um babaca (“ai, como vou saber que sou babaca?”), se você for babacão seu número da sorte é I. Isso mesmo, número imaginário (“imagina aeeeee”). Metaforicamente quero insinuar que você não é digno de número da sorte.

Enquete: Seria eu um babaquis?

Nossa, ui ui ui, tá preocupadis? Bem, vamos ao hall exemplificativo, que obviamente não esgota as possibilidades.

11      Se você é ex-namorado(a) da(o)s minha(o)s amig(oa)s: você é babaca.
22     Se você já disse “amor, você está engordando”, take it easy, take it slow. B a b..
33   Se você, mulher, independente, orgânica e bem sucedida, não deixa seu(uá) parceiro (a) respirar. Chato. Chata. Chatão.
44      Se você tomar Yakuti dos outros, assim...babaca.
55     Se você é Juiz e não atende os adevogados e acha as partes leigas. Leigos. Leigas. Sr. Excelentíssimo meritíssimo, o Sr. é babababababaca.
66      Anarquiaaaaa: babaca.
77      Se vc cruza com uma mulher de tpm: b_ b_ c_. Non importe quoi. C’est la vie.
Chega.


Chega. Eu sou uma ser(á?) humana de sabedoria inesgotável, mas tudo tem que ter um limite. Chega de dicas-toques-e-cuticutiestorias, você vá se distrair com outra coisa. Esse texto acabou e volte lá para seu facebook.

13.5.15

Soprimentos

Se eu fechar meus olhos agora, chego num Canyon, daqueles que eu nunca fui. Eu tenho aquelas botas que nunca comprei, mas a boca que beijo é a sua – que já tive, tenho e quero sempre mais.

Seu cabelo vai ter crescido e você terá um dente prateado, só pra fazer graça quando ri. Seu nome até lá terá mudado para Billy Joe e você usará uma pulseira de couro de urso e um cordão de dente de unicórnio. Até lá a outra tatuagem já terá vindo, depois da viagem para Índia. Nesse tempo, nos tornamos macrobióticos e só comemos coisas enormes.

A vida vai passar devagarzinho, com a leveza de um trem de interior. Teremos dias de mato e de muitas flores. Teremos uma horta num barco e comeremos baleias assassinas. Ninguém vai mais fazer imposto de renda e não teremos tempo sobrando para a aposentadoria.

Nunca mais assinaremos nada e mais de três papéis não poderão ser reunidos na mesma mão. Todos os setores administrativos do mundo acabarão. Os de execução vão andar por eles mesmos, cada qual com seu cada um.

Se eu fechar meus olhos agora, estamos numa montanha e eu tenho um gorro colorido. Seus olhos continuam brilhando, seu nariz escorre por causa da temperatura gelada. Seus lábios estão rachados e esbranquiçados. Estamos em silêncio e profundamente felizes. Há tempos não víamos neve. Celebramos com um vinho que você escondeu por todo o percurso.

Num piscar de olhos estamos numa cidade. Mil cores cintilantes, é noite e você quer perambular. É dia e a rotina nos prende. Madrugada e eu invento uma profecia. Levantamos a âncora e o vento nos faz dar voltas.

Aprendo a fazer pizza sem glúten, faço macarrão de abobrinha e cachorro quente de unha e intestino de frango. É possível que meus peitos caiam, mas meus olhos estarão notadamente melhores – caberá muito mais mundo. Vou saber tocar gaita ou flauta, cortarei meu próprio cabelo e farei depilações temáticas. Vai ser tudo muito bom.

Amanhã, especificamente, vou a Olaria. Ora, toda travessia começa em algum lugar, não é mesmo?


Par se ir ência.

7.5.15

Réussir

Tendemos a pensar que a vitória é feita de saltos e atitudes bombásticas, mas eu afirmaria justamente o contrário. Há sempre o espaço inevitável do tédio, da frustração e do esforço contínuo.

Tem uma frase na bíblia que fala assim: “se te mostras fraco no dia da angústia, quão pequena é tua força”. Sempre intuí que o sucesso advém, não de pernas firmes que sustentam, inabaláveis, por todo o tempo; em sim, de pernas bamboleantes que suportam o que for necessário. I mean: é aos trancos e barrancos mesmo. E se você conhece alguém que venceu sem desmanchar o topete, bem, azar o dele.

Mais difícil do que sonhar, é perseverar no sonho. Quando tudo começa a dar errado, atacamos logo as premissas: “não deveria estar fazendo isso”, “preciso parar de querer”. Sai dessa lama, jacaré. E larga de ser chato também, porque ficar andando por aí, com a cabeça baixa e chutando pedrinhas é uma super bad vibe. E nós fomos feitos para altas ondas.

Eu nunca ganhei um bilhão de reais, nunca venci uma luta contra o câncer ou encontrei o amor da minha vida em 10 passos. Mas me considero uma pessoa bem sucedida. Eu era um feto, sem cabelo, não sabia falar, cagava nas calças e hoje uso computador e falo mais de três idiomas. Se olharmos em perspectiva, é coisa à beça - sem querer diminuir ninguém, mas acho isso mais importante do que riqueza, poder e sexo (muito sexo).

O ponto central é que a expectativa é como aquelas gelecas coloridas que vinham num potinho. Era ótimo de apertar, mas se caísse no chão ou grudasse no cabelo, era um Deus nos acuda. Não deixe suas expectativas sobre a felicidade serem tão difíceis de administrar na vida real.

Sempre que eu fico muito triste, porque falhei ou simplesmente não consegui alcançar o que almejava, lembro que o tempo de ser alegre e satisfeito é agora. Condicionar sua realização pessoal é uma armadilha escabrosa. Teve uma época em que meu cabelo caiu, eu estava tão estressada e agoniada que comecei a ficar careca. Fiquei parecendo aqueles índios com tudo raspado perto das orelhas e as madeixas longas caindo por cima. Eu estava preocupada com dinheiro, em conseguir um estágio. Fiquei careca de bobs, porque tudo deu certo.

O que mais nos atrapalha a avançar é o medo incontrolado de não conseguir avançar. Deixamos a insegurança ficar mordiscando nossos calcanhares e atrasamos nossas passadas. Há gente muito bacana que sofre mais do que personagem de drama francês. Traições, leptospirose, toda sorte de desgraças. Por quê? Por que, porque coisa nenhuma. Eu não sei, você não sabe. Se foi Deus, o diabo ou todos os Santos. A questão é: não importa.


Você é forte. Viver é bom. E vencer é prosseguir.

18.3.15

N’est pas l’amour, mais c’est pareil.

Não se sabe muito bem a classificação, mas é um sentimento morno e confortável, no qual cochilamos. Não chega a ser amor filhote, é outra coisa gostosa também, só que com outra textura. É como se estender no sol na calçada do vizinho, fechar os olhos e sentir o cachorro lambendo seus pés. Uma preguiça de ser energicamente feliz, um deixar-se em paz.

Estou enjoada de paixões: um tumulto, uma histeria, despencamento que é trop pour moi. Todo mundo se ama pra sempre e depois não manda nem cartão de Natal. Porém. Estou enjoada do marasmo, comer chocolate, sushi, sashimi, enfrentar a tpm sem dormir esgueirada no sovaco de um fofolete cuticuti.

Dilema, percebe? Dilemasso!

Bem, como estou proibida de fazer projeções, não posso esclarecer como será o futuro. Mas, imaginar não é projetar, no que adianto o seguinte: pretendo me entregar a um sentimento novo chamado sambarelove. É parecido com o amor, mas ninguém ama ninguém. Também não é aquele desprendimento de carpe diem. Sambarelove é deixar-se sentir uma coisa boa e vem do latim tchururum estilum que significa “se está maneiro, tá legal”. No sambarelove os estresses são moderados ou baixos e o porvir não é muito bem definido - mas vai ser bom.

Importante não confundir com o sentimento passandonacara ou pegaçãodxsnovinhxs. Esse aí é um sentimento válido, mas que não faz carinho na alma. Sambarelove toca o seu coração. Você olha pra pessoa e gosta muito. E quer ficar perto, quer ver mais. Mas não quer chamar de amor e contar prazamigas e pensar nos filhos e se preparar pro divórcio e voltar pra academia e dizer que tudo passa.

Sem roteiro ou desfecho, uma florzinha colorida que a gente traz no peito.
Não vem no manual, mas a gente aprende a manejar. N'est pas, mais c'est. Não é amor, mas nos assemelha.

O que a Morte não toca

Recentemente tive uma experiência transcendental que me aproximou, e muito, da temática mortífera. Por um motivo ou por outro, tive um piripaque logo depois de preparar espinafre com ovos. Senti uma leseira, um bambolejar dos joelhos e pronto. Depois disso foi só acodimento: minha mãe olhou para minha cara e viu São Pedro segurando minha mão. Toma sal, olha o remédio; minha avó, trêmula pegou o sagrado aparelho de pressão. Da minha parte tive várias sensações únicas. A primeira foi a expansão de pensamentos. Pensei que minha alma tinha saído do corpo, mas depois percebi que meus movimentos estavam devagar e meus pensamentos, apressados fluiam: pega o copo, o copo, vai cair! O copo, casseta! Já que a mão não ia, o pensamento flutuava até o copo. Você vai se estabacar, segura na pia, se joga na pia, chama alguém! E como eu permanecia imóvel, os comandos se espalhavam como ondas, tocando os objetos, como quem mostra a direção.

Quando minha mãe me olhou, viu isso tudo. O que ela não sabia era que meus lábios estavam duros feito durepox e formigando feito cotovelo que bate na quina. Ganhei sal, proferi uma cura rápida e fui tomar banho. E sem muito ensaio, estava sentada no chão do box, xampu escorrendo, a água quente amolengando ainda mais a minha carne. Meio desconfiados, os familiares evocaram meu nome e meia dúzia de respostas desconexas fizeram uma abordagem direta necessária. Desliga chuveiro, coloca roupa, só mulheres no recinto. Eu, que era dona de mim, protestei com todas minhas forças, uma vez que não havia ainda passado o condicionador, o que deixa meu cabelo espigado. Não me deram ouvido e saí sem classe, com pijama de bolinhas e cabelo ressecado.

Minha vovó, D. Edilsa, loirinha e pequenininha com unhas rosas, ficava saltitando de uma perna para a outra sem saber o que fazer. Meu pai achou que era movimentação normal da casa e decidiu se focar na digitalização de documentos. Ora ora, já que minha mãe resolveu fazer qualquer coisa lá pro lado da cozinha, a sogra (minha avó), ressentida como só as sogras podem se sentir, resolveu que iria solucionar ela mesmo o problema. Desempacotou o aparelho de pressão enrolou no meu braço e, paralelamente, percebeu que havia uma peça a mais. Gritou: Ai, minha nossa Senhora. Abriu as pernas do auscultador e colocou uma em cada têmpora. Vó, isso é pra ouvir, risonha coloquei nas orelhas dela. Garota, isso vai explodir meus ouvidos e você vai ver uma coisa. Parei de achar graça quando ela começou a apertar a bombinha e esmagar meu braço, a mão ficando branca. Ela sentenciou: Tá piorando, a mão e a boca sem sangue, hein. Nisso vem minha mãe, com um ar profissional e competente, me dá uns remédios e explica: muito baixa a pressão!

Minha avó suspirou aliviada, se benzeu, pressão alta é um perigo, fui parar no UPA! E nada no mundo fazia ela entender que muito baixa era ruim também. Que benção, minha filha, pressão baixinha! Nessa hora minhas pernas estavam para cima o que ela achou pura bobagem, minha melhora era garantida. Minha mãe explicou o que acontece quando a mínima e a máxima se encontravam e disse que eu cheguei a 9,5 x 7,5. Dona Edilsa olhou para a nora com profunda mágoa, por não ter sido mais clara antes e resolveu que os paparicos precisavam continuar: fingiu que catava piolho, apertou todos os dedos dos meus pés, contou as minhas três estórias favoritas da infância dela e por fim me deu 50 reais.


Depois disso melhorei. Meu coração disparou vendo Cidade Alerta com a minha avó e fiquei tão nervosa que pedi o aparelho dela de pressão. Mas me convenci absolutamente de que eram gases e fiz tanta força, tanta força que por fim peidei e dei o caso por resolvido. Minha avó deu aquele olhar sapeca e me chamou do velho apelidinho caseiro: peidona, minha peidona. E por um instante mágico ela me fez entender que a maioria das coisas da vida (e da morte!) se resolve com uma boa e conhecida flatulência.