A situação é de perplexidade e gozo sem fim.
É um abraço daqueles macios que transmitem a textura de um rosto de aconchego.
Um certa bochecha avermelhada, rubra, ornamentada por uma face dócil e alva.
A perplexidade me cansa a alma e caminho com os pés pesados de tanto chão. Parece que, por algum motivo, as solas se apegaram ao centro da terra e meus ombros são sugados para baixo, de maneira que meu tronco é comprimido e minha mente se desfaz em agonia.
A perplexidade me regenera, com uma serenidade quase cruel. Depois que se leva o susto, é tendência humana aliviar-se: pela sensação forte e abrupta não perdurar para sempre. Aquele estraçalhar atônito não ser infinito.
E é perplexa e exaurida que puxo um fio de esperança, um certo fio de ouro que ornamenta meus cabelos, corpo e vestido. E assim vou tecendo com esse fio imenso...vou tecendo num linho branco, que se movimenta e dança em mim, que se prende e me cobre lindamente.
Como uma princesa resoluta, limpa e descansada, fecho os olhos embebidos em cílios sonhadores. Cotidiana mesmo, esbanjo acontecimentos fantásticos em um mundo de puro prazer.
A perplexidade me levou para caminhos extremos.
É chegado um bom lugar.
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27.7.09
Conto do perdão burro
Era uma vez uma cidade real, onde muitos se conheciam e outros tantos se indiferenciavam. Pepita vivia na cidade realeza com modesta vivência, era uma jovem pálida e quieta.
Entretanto, havia algo em Pepita de desdizia sua existência, pois que se a menina se movia, tragava toda a vida para perto de si e se sorrisse, as rosas desabrochavam de prazer. Pepita era repugnante e singela, uma dessas criaturas místicas que evitamos nos apegar.
Por sua forma de balançar mundos, suave e melodicamente, Pepita era pessoa notável. Conhecida por sua bondade, Pepita se ia, repetitiva.
Até que um dia um mal sobreveio. A jovem ficou tão triste e tão pálida como sempre foi. Só que agora, sem mais contrapontos e contrapassos. O mal machucou Pepita e ela ficou doente, feito planta murcha no inverno.
Ela
tentava
respirar
mas não conseguia. E por solidão e desespero só, chorava.
Ela vivia naqueles tempos medievais e frios e usava uma touca branca que cobria seus cabelos. Usava vestido cheio, com avental por cima e sujo de carvão.
E assim, ela chorava, vestida bem dela mesma. Em tempos remotos, de calabouços e princesas.
Alguns passarinhos observavam a mocinha, tristonhando por ela. Mas gente de humano, apenas uma apareceu. Chamava-se Fine e era mulher pequena, magra e aguda. Fine trouxe pedaços de cores, trouxe pedaços de terra, trouxe pedaços do favorito. E Pepita se apegou a Fine, criando para ela regra de exceção.
Depois.
Fine foi dizendo para Pepita que não esbravejasse contra os abandonantes, pois que queriam ter sido chamuscados pelo fogo que consumia Pepita, mas que não deu, por vontade não foi. Por vontade tinham sido tão trucidados quanto a jovem. Por desejo eram próximos e por desejo, confiáveis. Que perdoasse, a Pepita, a falta deles.
Pepita viu-se boba tola, e como quem resolutamente mete a mão no piano e toca uma nova canção, cancionou. E todos dançaram e todos celebraram. Até cansarem, até adormecerem.
E Pepita então parou, para se unir a eles e descansar. Porém, enquanto caminhava para o aconchego, viu o mal etiquetado, no bolso de cada um deles.
Deu, riso, música e paz para quem quase lhe comeu os olhos. Sua esperança foi estrangulada. A jovem pegou-se toda ela, abandonou as roupas reais e descambou-se para o reino da fantasia.
Entretanto, havia algo em Pepita de desdizia sua existência, pois que se a menina se movia, tragava toda a vida para perto de si e se sorrisse, as rosas desabrochavam de prazer. Pepita era repugnante e singela, uma dessas criaturas místicas que evitamos nos apegar.
Por sua forma de balançar mundos, suave e melodicamente, Pepita era pessoa notável. Conhecida por sua bondade, Pepita se ia, repetitiva.
Até que um dia um mal sobreveio. A jovem ficou tão triste e tão pálida como sempre foi. Só que agora, sem mais contrapontos e contrapassos. O mal machucou Pepita e ela ficou doente, feito planta murcha no inverno.
Ela
tentava
respirar
mas não conseguia. E por solidão e desespero só, chorava.
Ela vivia naqueles tempos medievais e frios e usava uma touca branca que cobria seus cabelos. Usava vestido cheio, com avental por cima e sujo de carvão.
E assim, ela chorava, vestida bem dela mesma. Em tempos remotos, de calabouços e princesas.
Alguns passarinhos observavam a mocinha, tristonhando por ela. Mas gente de humano, apenas uma apareceu. Chamava-se Fine e era mulher pequena, magra e aguda. Fine trouxe pedaços de cores, trouxe pedaços de terra, trouxe pedaços do favorito. E Pepita se apegou a Fine, criando para ela regra de exceção.
Depois.
Fine foi dizendo para Pepita que não esbravejasse contra os abandonantes, pois que queriam ter sido chamuscados pelo fogo que consumia Pepita, mas que não deu, por vontade não foi. Por vontade tinham sido tão trucidados quanto a jovem. Por desejo eram próximos e por desejo, confiáveis. Que perdoasse, a Pepita, a falta deles.
Pepita viu-se boba tola, e como quem resolutamente mete a mão no piano e toca uma nova canção, cancionou. E todos dançaram e todos celebraram. Até cansarem, até adormecerem.
E Pepita então parou, para se unir a eles e descansar. Porém, enquanto caminhava para o aconchego, viu o mal etiquetado, no bolso de cada um deles.
Deu, riso, música e paz para quem quase lhe comeu os olhos. Sua esperança foi estrangulada. A jovem pegou-se toda ela, abandonou as roupas reais e descambou-se para o reino da fantasia.
18.7.09
Dorinha (vem)
A vida, Dorinha
Senti necessário um narrador em terceira pessoa. Alguém para acompanhá-la nessa saga, nessa tristezinha que você está. E como você, Dorinha, começou falando sobre conceitos, preceitos e conclusões, faço o mesmo para não lhe surrupiar o estilo. Venha comigo Dorinha, que hei de dar-lhe um final feliz.
Dorinha pensava muito e sempre que pensava inventava umas firulas para sua existência. Dorinha não parava de entender o que era vida e, nessa etapa, percebeu o quão importante foi refletir sobre os tempos verbais (presente, passado e futuro). Digo tempos verbais, porque, ainda que não percebesse, Dorinha era extremamente gramatical. Pensava em letras e se apegava a um pedaço de papel mais do que a ouro e a diamantes. Pensando, pensava Dorinha que letras são jóias que acabam morando dentro de nós.
Por isso, ao pensar nos tempos -ditos verbais- concluiu quase que espontaneamente o que vem a ser a vida. A vida, ela dizia em sua meditação, é o que acontece entre o futuro e o passado. A vida não é o agora, porque agora é instantâneo. A vida é uma linha contínua de agoras, um período, um pedaço de tempo fluido que transita entre o mistério do que será e o conhecimento do que já foi. Isso é a vida.
Dorinha sentiu-se feliz. Pois, pela primeira vez, sentiu-se livre do tempo. Agarrou-se a vida sem nomenclaturas. Um alegria tão calma, ficou mansa e adormeceu. A Dorinha, nossa mosquinha.
Isadora sonhou depois de muitas e muitas noites sem dormir. E isso lhe deu um prazer tão cru, que interrompia-se no próprio sonho na afobação do que acontecia. Era coisa de estória simples, daquelas que continuamos em um filme eterno e esquisito. Fato é que sonhava e era o bastante, pelo menos por hora.
Foi ligeiramente desagradável quando surgiu um pretendente antigo, ali, no meio da cena. O problema era que o tal insistia em participar, embora a menina o afastasse. Ele vinha cheio de olhos e de face. Dorinha se lembrou do ritmo dele, do tipo de movimento que ele tinha. Seu nariz era particularmente bonito. Assim, acabou-se a festa: a realidade chegou rendendo a todos e tiveram que entregar a fantasia. Acordou-se querendo dormir.
A garota - chamo assim porque já sou narrador mais antigo-, a garota percebeu que nem em mundos inventados conseguia a paz de um amor tranquilo. Ficou enraivecida, como era de se esperar. Fazia um frio ensolarado nesse dia, pelo que pegou um agasalho modesto e saiu-se para passear. Escolheu um parque daqueles com árvores quietas e abundantes. Sentou no banco e inutilmente teve esperança. Depois de alguns minutos já estava como um ramo que quebra e fica pendurado ao caule, como se vivo estivesse, morto que está. Vivia assim, Isadora.
Daqui para frente chamarei de Isadora, por questão de respeito puro. Aquela linda criatura feita de gente. Isadora estava cheia de areia por todos os lados, o deserto lhe cobriu e ela serviu de monte, de trecho igual. Coitada, tão alheia a ela mesma, tão só de si.
A Isadora queria esparramar, mas virou-se gota de novo. O final feliz que lhe proporciono é o que os velhos e sábios dariam. Achar nesse agora esticado que é a vida algo que não a compensação da felicidade. Como narrador onipotente, instauro em Isadora um esquecimento total de seus sonhos impronunciáveis.
Isadora notou-se diferente. Havia uma leveza tão particular tão boa. Alívio. E se deu conta que seus sonhos haviam sumido. Sem desespero. Alívio. Para mostrar que alguns ideais devem ser abandonados, Isadora vestiu-se de flor e desabrochou. Silente, intrinsecamente.
O narrador e a Isadora concluíram que soluções das mais diversas são possíveis. Conceberam que nem sempre o que dói é o pior. Que há sonhos podres e é preciso limpar-se.
Senti necessário um narrador em terceira pessoa. Alguém para acompanhá-la nessa saga, nessa tristezinha que você está. E como você, Dorinha, começou falando sobre conceitos, preceitos e conclusões, faço o mesmo para não lhe surrupiar o estilo. Venha comigo Dorinha, que hei de dar-lhe um final feliz.
Dorinha pensava muito e sempre que pensava inventava umas firulas para sua existência. Dorinha não parava de entender o que era vida e, nessa etapa, percebeu o quão importante foi refletir sobre os tempos verbais (presente, passado e futuro). Digo tempos verbais, porque, ainda que não percebesse, Dorinha era extremamente gramatical. Pensava em letras e se apegava a um pedaço de papel mais do que a ouro e a diamantes. Pensando, pensava Dorinha que letras são jóias que acabam morando dentro de nós.
Por isso, ao pensar nos tempos -ditos verbais- concluiu quase que espontaneamente o que vem a ser a vida. A vida, ela dizia em sua meditação, é o que acontece entre o futuro e o passado. A vida não é o agora, porque agora é instantâneo. A vida é uma linha contínua de agoras, um período, um pedaço de tempo fluido que transita entre o mistério do que será e o conhecimento do que já foi. Isso é a vida.
Dorinha sentiu-se feliz. Pois, pela primeira vez, sentiu-se livre do tempo. Agarrou-se a vida sem nomenclaturas. Um alegria tão calma, ficou mansa e adormeceu. A Dorinha, nossa mosquinha.
Isadora sonhou depois de muitas e muitas noites sem dormir. E isso lhe deu um prazer tão cru, que interrompia-se no próprio sonho na afobação do que acontecia. Era coisa de estória simples, daquelas que continuamos em um filme eterno e esquisito. Fato é que sonhava e era o bastante, pelo menos por hora.
Foi ligeiramente desagradável quando surgiu um pretendente antigo, ali, no meio da cena. O problema era que o tal insistia em participar, embora a menina o afastasse. Ele vinha cheio de olhos e de face. Dorinha se lembrou do ritmo dele, do tipo de movimento que ele tinha. Seu nariz era particularmente bonito. Assim, acabou-se a festa: a realidade chegou rendendo a todos e tiveram que entregar a fantasia. Acordou-se querendo dormir.
A garota - chamo assim porque já sou narrador mais antigo-, a garota percebeu que nem em mundos inventados conseguia a paz de um amor tranquilo. Ficou enraivecida, como era de se esperar. Fazia um frio ensolarado nesse dia, pelo que pegou um agasalho modesto e saiu-se para passear. Escolheu um parque daqueles com árvores quietas e abundantes. Sentou no banco e inutilmente teve esperança. Depois de alguns minutos já estava como um ramo que quebra e fica pendurado ao caule, como se vivo estivesse, morto que está. Vivia assim, Isadora.
Daqui para frente chamarei de Isadora, por questão de respeito puro. Aquela linda criatura feita de gente. Isadora estava cheia de areia por todos os lados, o deserto lhe cobriu e ela serviu de monte, de trecho igual. Coitada, tão alheia a ela mesma, tão só de si.
A Isadora queria esparramar, mas virou-se gota de novo. O final feliz que lhe proporciono é o que os velhos e sábios dariam. Achar nesse agora esticado que é a vida algo que não a compensação da felicidade. Como narrador onipotente, instauro em Isadora um esquecimento total de seus sonhos impronunciáveis.
Isadora notou-se diferente. Havia uma leveza tão particular tão boa. Alívio. E se deu conta que seus sonhos haviam sumido. Sem desespero. Alívio. Para mostrar que alguns ideais devem ser abandonados, Isadora vestiu-se de flor e desabrochou. Silente, intrinsecamente.
O narrador e a Isadora concluíram que soluções das mais diversas são possíveis. Conceberam que nem sempre o que dói é o pior. Que há sonhos podres e é preciso limpar-se.
15.7.09
Dorinha
Outro dia estive pensando: que é o futuro senão pingo caído no chão? Pingo de chuva morto no chão, vem do céu cai na terra, vira lama. Futuro é isso, não se engane. Em algum lugar o ‘agora’ se chama ‘tempo real’, e todos querem. O tempo real. E o que é o passado então? Tempo ficto. Deve de ser. Deve de ser. E com caraminholas na cabeça, não me sai dos pensamentos que o presente para mim é o mais utópico, é sensacionalismo, fantástico em demasia. Não gosto de viver de futuro, porque esse inventar me cansa, são tantos caminhos e sóis. Gosto de beber do passado, rememorado e findo. Refaço notícias gordas e frescas. É o que gosto. O passado me alimenta e se projeta em meus olhos, vejo tudo medieval, meus vestidos se alongam e rendas brotam em meu colo. Gosto dessa nostalgia inventada, de fazer do mesmo fato milhões de estórias. Reler e reler, sem se prender ao verdadeiro.
Melhor que o futuro, amigo do agora, cheio de surpresas nefastas, impregnado de acontecimentos podres. Não tenho fé no futuro, nem esperança no agora, o que me encanta é o passado. Arrasto-me sobre ele e absorvo seu cheiro de flor ida. Desde muito vivo sepultada, morreram e com eles me faleci.
Estava caminhando nas minhas próprias casas e senti um pingo de chuva cair em mim. Pode isso? A chuva perseguir os reclusos? Senti-me intimidada pelos céus, lotados de nuvens molhadas. Vez por outra, me pego andando pela rua e sendo gotejada, pingo único só para mim, demonstrativo de que não existem tetos: somente céus e infernos.
Isadora é nome meu. Nome de dor poderosa. O mundo sente-sabe quando nasce uma fagulha de destroço, nasci-me, desde pequena nasço sempre. Já fui de todo jeito, já comi todo tipo de comida. Meus olhos que continuam mesmando e meu cabelo que continua em fios. De resto sou outra mulher. Dorinha que me chamam e eu atendo. Não sei porque sabem meu nome, quisera eu que se emudecessem ou que meus ouvidos se fechassem. Seria meu descanso, meu milagre.
Sempre esse abandono velado. Toda vez em prontidão, esperando quem me espanque. Dorinha, dizem, você é uma flor amarela pequena e pura. Dorinha, exalam, seu cheiro é bom e sua pele macia. Dorinha, pedem, deixe de estar e venha para eu ter. Dorinha, mentem, nada de mal lhe acontecerá.
Usam o diminutivo para aumentar minha vontade, vou-me rasteirinha, regando-me toda e inventando canções de amor. Trabalho por horas a fio, engulo arco-íris sem fim. Observo o dourado da palha. Recito minha crença antiga: existe o amor, existe amém.
Dorinha, explicam, tenha paciência comigo. Dorinha, calam. Dorinha, massageiam, você é mais bela que o som. Dorinha, concluem, vá embora tenho medo de amar. Abrupta socorro-me lentamente, pego minha crença mendiga, pedaço de papel desvantajoso, a guardo dentro da blusa, colada no peito, no quente do corpo. Com esperanças de que se transforme em viva com o calor do que me falta.
Por isso me apego ao passado, me aquietam os desastres já conhecidos, aquilo que já foi mastigado. Quando futuro, se rasgam os emblemas, fico sem escudos ou origens. Dorinha é que me falam, sou diminutivo de sofrimento simples. Pereço boba como uma mosca, mas brilho como uma estrela.
Esse é o meu lamurio, enfim, confundo a todos com uma realeza típica e inacreditável. De repente viro castelo, com flechas, armaduras, estalagens. Sem entender porque me fazem assim. Não há batalhas, grito afônica, sou imponente: mas também sou refúgio. A arma que fere também serve para defender. O muro que separa também ajuda a permanecer unido. A porta que fecha, encerra coisas valiosas. Nessa hora, meu nome vem completo de Isadora e se esquecem que sou mais borboleta do que princesa, vão destroçando tudo com demonstrações extraordinárias. Penso que sou Dorinha só para o que dói, para carinho miúdo e bom sou Isadora a deusa. Mosca-estrela, como sempre se diz.
Seguro firme minha crença imunda, devoro-a: fico grávida do que nunca será.
existe o amor, existe amém.
Melhor que o futuro, amigo do agora, cheio de surpresas nefastas, impregnado de acontecimentos podres. Não tenho fé no futuro, nem esperança no agora, o que me encanta é o passado. Arrasto-me sobre ele e absorvo seu cheiro de flor ida. Desde muito vivo sepultada, morreram e com eles me faleci.
Estava caminhando nas minhas próprias casas e senti um pingo de chuva cair em mim. Pode isso? A chuva perseguir os reclusos? Senti-me intimidada pelos céus, lotados de nuvens molhadas. Vez por outra, me pego andando pela rua e sendo gotejada, pingo único só para mim, demonstrativo de que não existem tetos: somente céus e infernos.
Isadora é nome meu. Nome de dor poderosa. O mundo sente-sabe quando nasce uma fagulha de destroço, nasci-me, desde pequena nasço sempre. Já fui de todo jeito, já comi todo tipo de comida. Meus olhos que continuam mesmando e meu cabelo que continua em fios. De resto sou outra mulher. Dorinha que me chamam e eu atendo. Não sei porque sabem meu nome, quisera eu que se emudecessem ou que meus ouvidos se fechassem. Seria meu descanso, meu milagre.
Sempre esse abandono velado. Toda vez em prontidão, esperando quem me espanque. Dorinha, dizem, você é uma flor amarela pequena e pura. Dorinha, exalam, seu cheiro é bom e sua pele macia. Dorinha, pedem, deixe de estar e venha para eu ter. Dorinha, mentem, nada de mal lhe acontecerá.
Usam o diminutivo para aumentar minha vontade, vou-me rasteirinha, regando-me toda e inventando canções de amor. Trabalho por horas a fio, engulo arco-íris sem fim. Observo o dourado da palha. Recito minha crença antiga: existe o amor, existe amém.
Dorinha, explicam, tenha paciência comigo. Dorinha, calam. Dorinha, massageiam, você é mais bela que o som. Dorinha, concluem, vá embora tenho medo de amar. Abrupta socorro-me lentamente, pego minha crença mendiga, pedaço de papel desvantajoso, a guardo dentro da blusa, colada no peito, no quente do corpo. Com esperanças de que se transforme em viva com o calor do que me falta.
Por isso me apego ao passado, me aquietam os desastres já conhecidos, aquilo que já foi mastigado. Quando futuro, se rasgam os emblemas, fico sem escudos ou origens. Dorinha é que me falam, sou diminutivo de sofrimento simples. Pereço boba como uma mosca, mas brilho como uma estrela.
Esse é o meu lamurio, enfim, confundo a todos com uma realeza típica e inacreditável. De repente viro castelo, com flechas, armaduras, estalagens. Sem entender porque me fazem assim. Não há batalhas, grito afônica, sou imponente: mas também sou refúgio. A arma que fere também serve para defender. O muro que separa também ajuda a permanecer unido. A porta que fecha, encerra coisas valiosas. Nessa hora, meu nome vem completo de Isadora e se esquecem que sou mais borboleta do que princesa, vão destroçando tudo com demonstrações extraordinárias. Penso que sou Dorinha só para o que dói, para carinho miúdo e bom sou Isadora a deusa. Mosca-estrela, como sempre se diz.
Seguro firme minha crença imunda, devoro-a: fico grávida do que nunca será.
existe o amor, existe amém.
11.7.09
Vexame
Sinto uma vergonha enorme uma vergonha existencial e medíocre um desejo insano
de apontar
para meus agressores e gritar: v o c ê f a l h o u c o m i g o.
Sair por aí distribuindo panos rasgados. Retalhos da minha carne.
Se me perguntarem: Dói?
Respondo: Dilacera
E se me perguntarem: fica?
Respondo: enraizei-me
E quando me machucarem, urrarei
e se me magoarem, pranteio na hora
não serei mais contida
nunca mais serei amena
de agora em diante não penteio mais o cabelo
e o meu hálito será o dos mortos
serei um escândalo de sinceridade
abandonarei nuvem e cavalheiros
não peço ajuda
porque não há quem socorra
não há quem pegue na mão
não existe o outro
só, existe eu
vexame
colapso
e eles dizem:
amém
de apontar
para meus agressores e gritar: v o c ê f a l h o u c o m i g o.
Sair por aí distribuindo panos rasgados. Retalhos da minha carne.
Se me perguntarem: Dói?
Respondo: Dilacera
E se me perguntarem: fica?
Respondo: enraizei-me
E quando me machucarem, urrarei
e se me magoarem, pranteio na hora
não serei mais contida
nunca mais serei amena
de agora em diante não penteio mais o cabelo
e o meu hálito será o dos mortos
serei um escândalo de sinceridade
abandonarei nuvem e cavalheiros
não peço ajuda
porque não há quem socorra
não há quem pegue na mão
não existe o outro
só, existe eu
vexame
colapso
e eles dizem:
amém
23.6.09
Percurso
O tempo suga para trás, tenta nos puxar.
A inércia é uma sensação de volta.
Quando percorremos, é um desprender, sacolejar, um livrar de braços. E nos desviamos e algo nos retém e nos lançamos totalmente para frente, tentando cortar os elásticos que nos prendem ao passado.
E nos despimos, fincamos as unhas no solo e nos arrastamos nus metro a metro, para seguir em frente. É uma queda horizontal que nos leva ao que já foi. Como um grito no meio do silêncio desde sempre. Brado. Guturalmente.
Espanto fantasmas, demônios, fracassos.
Proclamo ao Deus Altíssimo, vou por entre árvores, rente ao chão, colado no peito.
Sem distância de tudo. Rastejo-me a diante. Rasgando o impossível.
Dentes trincados, força, suor. Movimento lento e majestoso. Sou eu girando planetas.
Piso profundo e com a resolução de um mito.
Estabeço-me na realidade, digo: existo!
Até que a resistência fica mais fraca que eu. Venço, ofegante, boca entreaberta, corpo firme.
Sou quem chegou. Quem enfrentou a escuridão, lanhei o inatingível.
Sou eu, quem escreve e que hoje carrega medalhas por vencer mortes e pesares.
Meu caminho é prosseguir.
A inércia é uma sensação de volta.
Quando percorremos, é um desprender, sacolejar, um livrar de braços. E nos desviamos e algo nos retém e nos lançamos totalmente para frente, tentando cortar os elásticos que nos prendem ao passado.
E nos despimos, fincamos as unhas no solo e nos arrastamos nus metro a metro, para seguir em frente. É uma queda horizontal que nos leva ao que já foi. Como um grito no meio do silêncio desde sempre. Brado. Guturalmente.
Espanto fantasmas, demônios, fracassos.
Proclamo ao Deus Altíssimo, vou por entre árvores, rente ao chão, colado no peito.
Sem distância de tudo. Rastejo-me a diante. Rasgando o impossível.
Dentes trincados, força, suor. Movimento lento e majestoso. Sou eu girando planetas.
Piso profundo e com a resolução de um mito.
Estabeço-me na realidade, digo: existo!
Até que a resistência fica mais fraca que eu. Venço, ofegante, boca entreaberta, corpo firme.
Sou quem chegou. Quem enfrentou a escuridão, lanhei o inatingível.
Sou eu, quem escreve e que hoje carrega medalhas por vencer mortes e pesares.
Meu caminho é prosseguir.
17.5.09
Correspondência
Querido leitor,
Escrevo essa carta na esperança de que as letras não morram sem nascer.
Alguma vez na vida você já esteve tão perto da dor que simplesmente sentiu paz?
E de tanto pranto, secaram-se as lágrimas.
E de tanto amor, um rasgo se deu.
Falta-me a vitalidade do outro. Daquele que perece, num leito, sem ar nos pulmões.
Nessas ocasiões preparamos a fúnebre visita, última. Antes que tudo se torne póstumo e inerte.
Como se aceita que alguém partirá?
Como se canta sobre amores vindouros?
Porque a vida, minha vida, se encerra em lábios frágeis e moribundos. Daqueles que definham, daqueles que são magros. Daqueles já foram fortes e bradavam.
Hoje, caro leitor, se ponho minhas mãos sobre aquele corpo doente, o que recebo é um carinho circular. E mesmo em meio aos destroços, sinto minhas mãos envolvidas pelo enfermo que é mais bravo do que eu.
Eu morro de medo e ele morre de estar vivo. Já viveu sim, bastante, pois bem.
Agora, talvez seja o dia dos lírios findarem e da chuva cair sobre mim.
Leitor meu, lhe digo: não tenho palavras doces, nem nojentas.
Há uma despedida lenta e majestosa. Escorre pelas brechas de mim.
Se todos morrem, por que vivo?
Se todos vão, por que vim?
A minha beleza vem deles, daqueles que com cabelos brancos envelhecem ternamente.
Sepultarei minha origem. Pequena e linda.
Aquele que me deu ferramentas.
Um eco. Chamo e não há resposta.
Não vá, fique para sempre comigo.
Escrevo essa carta na esperança de que as letras não morram sem nascer.
Alguma vez na vida você já esteve tão perto da dor que simplesmente sentiu paz?
E de tanto pranto, secaram-se as lágrimas.
E de tanto amor, um rasgo se deu.
Falta-me a vitalidade do outro. Daquele que perece, num leito, sem ar nos pulmões.
Nessas ocasiões preparamos a fúnebre visita, última. Antes que tudo se torne póstumo e inerte.
Como se aceita que alguém partirá?
Como se canta sobre amores vindouros?
Porque a vida, minha vida, se encerra em lábios frágeis e moribundos. Daqueles que definham, daqueles que são magros. Daqueles já foram fortes e bradavam.
Hoje, caro leitor, se ponho minhas mãos sobre aquele corpo doente, o que recebo é um carinho circular. E mesmo em meio aos destroços, sinto minhas mãos envolvidas pelo enfermo que é mais bravo do que eu.
Eu morro de medo e ele morre de estar vivo. Já viveu sim, bastante, pois bem.
Agora, talvez seja o dia dos lírios findarem e da chuva cair sobre mim.
Leitor meu, lhe digo: não tenho palavras doces, nem nojentas.
Há uma despedida lenta e majestosa. Escorre pelas brechas de mim.
Se todos morrem, por que vivo?
Se todos vão, por que vim?
A minha beleza vem deles, daqueles que com cabelos brancos envelhecem ternamente.
Sepultarei minha origem. Pequena e linda.
Aquele que me deu ferramentas.
Um eco. Chamo e não há resposta.
Não vá, fique para sempre comigo.
3.5.09
Selvagem
Daqueles que comem verduras e destroçam ventres.
Daqueles que têm língua de navalha e cabeça de mel.
Malvados, cínicos do mundo!
Canastrões! Faceiros
Lindíssimas criaturas que mentem, envolvem com piadas incorretas.
Moralmente reprováveis, eticamente os louvo.
Porque são livres deles mesmos e em tudo transborda amor: em não ser sempre sendo
ainda mais
Como se voltas fossem feitas de pontos curvilíneos
Como se lençóis fossem feitos de paz.
Como se fossem de algodão as mãos. Como se a esperança se tornasse grama macia.
E é como se tudo ficasse amorfo e andasse como pato.
pés abertos, peitos esticados para o ar
Cabelo enrolado daqueles que se alisam de tédio
Olhos de quem repara em poesias ocultas, que cabem nas patas de um mosquito
Força! Gutural de uma formiga.
Balanço gostoso de viração marítima.
Daquelas que rodam a gente. Bamba bamba, danço na natureza linda.
vejo tudo ritmado
vilas, palhaços.
dentes que me mostram alegria
sorriem
perdi uns dentes. levei soco na boca
cuspi meu maxilar inteiro e nasceu uma flor carnívora
exótica, mordente
Ah, que exaltação
As palavras ficam germinando, jorrando do poço
Jogadas a metros de infinitos, de imensidão.
Umas vão tão distante que as perco indefinidamente
rodopio de sensações
cansaço de vida
terra no rosto
sou negra, marrom, sou onde se plantam
sou notas, sou arcos
sustento
sou frígida. fingidamente calma
sou máscara
imponente escritora de fantasia
mas eu acredito
respiro meus delírios, os vivo
os almejo, como
mastigo
engulo
meus mundos são digeríveis, são alimento
passo
paro
passo, paro
deito
cheiro
nevoando e, sem mais outros instrumentos, canto sozinha, mexendo os pés na minha melodia
espalhando as folhas secas
e criando pétalas
antes de me nascerem sonhos, criei por séculos e mais séculos
criei pétalas. enroladas e coloridas, escondidas dentro da minha planta.
desenhei minhas folhas como quem transporta sua vida para uma semente
como quem se projeta na espera
enrolei-me de tal modo que cresci sem perceberem. fiquei gigantesca e de noite, aumentava minha existência.
preenchi diversos planetas enquanto crescia, sem flor - sendo folha
e ninguém via que a vida me brotava
em um dia
abri
estiquei meus braços e disse:
o mundo é meu
peguei minhas flores, as arrumei em meus olhos
e disse:
perfumem meu mundo
arrumei a minha terra e disse:
nutra-me eternamente
o que vale é a paz cravada, é a vontade que escorre por entre lábios
são palavras! ditas!
Bramidos!- sussurrados
Tragam-me boas notícias.
Quem vos fala é quem vos flore.
Eu sou de pluma, sou doce, sou mansa
Sou mirante. Miragem não.
Sou criadora de pétalas. Riacho escondido.
Refresquem-se em mim, que eu vos rego com Deus.
Bons vocábulos.
Daqueles que têm língua de navalha e cabeça de mel.
Malvados, cínicos do mundo!
Canastrões! Faceiros
Lindíssimas criaturas que mentem, envolvem com piadas incorretas.
Moralmente reprováveis, eticamente os louvo.
Porque são livres deles mesmos e em tudo transborda amor: em não ser sempre sendo
ainda mais
Como se voltas fossem feitas de pontos curvilíneos
Como se lençóis fossem feitos de paz.
Como se fossem de algodão as mãos. Como se a esperança se tornasse grama macia.
E é como se tudo ficasse amorfo e andasse como pato.
pés abertos, peitos esticados para o ar
Cabelo enrolado daqueles que se alisam de tédio
Olhos de quem repara em poesias ocultas, que cabem nas patas de um mosquito
Força! Gutural de uma formiga.
Balanço gostoso de viração marítima.
Daquelas que rodam a gente. Bamba bamba, danço na natureza linda.
vejo tudo ritmado
vilas, palhaços.
dentes que me mostram alegria
sorriem
perdi uns dentes. levei soco na boca
cuspi meu maxilar inteiro e nasceu uma flor carnívora
exótica, mordente
Ah, que exaltação
As palavras ficam germinando, jorrando do poço
Jogadas a metros de infinitos, de imensidão.
Umas vão tão distante que as perco indefinidamente
rodopio de sensações
cansaço de vida
terra no rosto
sou negra, marrom, sou onde se plantam
sou notas, sou arcos
sustento
sou frígida. fingidamente calma
sou máscara
imponente escritora de fantasia
mas eu acredito
respiro meus delírios, os vivo
os almejo, como
mastigo
engulo
meus mundos são digeríveis, são alimento
passo
paro
passo, paro
deito
cheiro
nevoando e, sem mais outros instrumentos, canto sozinha, mexendo os pés na minha melodia
espalhando as folhas secas
e criando pétalas
antes de me nascerem sonhos, criei por séculos e mais séculos
criei pétalas. enroladas e coloridas, escondidas dentro da minha planta.
desenhei minhas folhas como quem transporta sua vida para uma semente
como quem se projeta na espera
enrolei-me de tal modo que cresci sem perceberem. fiquei gigantesca e de noite, aumentava minha existência.
preenchi diversos planetas enquanto crescia, sem flor - sendo folha
e ninguém via que a vida me brotava
em um dia
abri
estiquei meus braços e disse:
o mundo é meu
peguei minhas flores, as arrumei em meus olhos
e disse:
perfumem meu mundo
arrumei a minha terra e disse:
nutra-me eternamente
o que vale é a paz cravada, é a vontade que escorre por entre lábios
são palavras! ditas!
Bramidos!- sussurrados
Tragam-me boas notícias.
Quem vos fala é quem vos flore.
Eu sou de pluma, sou doce, sou mansa
Sou mirante. Miragem não.
Sou criadora de pétalas. Riacho escondido.
Refresquem-se em mim, que eu vos rego com Deus.
Bons vocábulos.
9.4.09
Mortidão
A morte veio ter comigo. Aborrecida, mandei que tomasse conta da sua própria vida. A morte, coitada, sem saber como existir, arregalou os olhos e encolheu os ombros.
- E como? - a morte soou.
- Não sei bem. A gente vive sem saber como funciona. Uma espécie de amostra grátis por tempo indefinido.
- E se não gostar, tem como trocar? - a morte questionou.
- Tem não. Quer dizer, tem. Trocar não, mas tem como morrer.
- E só? - perguntou mortífera.
- Também é possível dar guinada.
- Como é guinada? - perguntou, perguntando a morte.
- Pintar cabelo, emagrecer. Correr, virar gostosa. Comprar roupa. Arrumar namorado careca e dizer que nunca esteve mais feliz.
- E serve para quê? - morte.
- Para os outros. Para esfregar vida na cara deles.
- E sobra algo para pessoa? - perguntou já se sabe quem.
- Contas, trabalho. Salto alto. Calo e peruca. Status!
- E status de quê?
- Status de quem vive.
A morte pensava que ninguém morria vivendo. Na verdade, ficou extasiada de felicidade, descobriu-se útil e presente na vida de tantos.
Morte amiga e cotidiana. Morte de todos os dias.
- E como? - a morte soou.
- Não sei bem. A gente vive sem saber como funciona. Uma espécie de amostra grátis por tempo indefinido.
- E se não gostar, tem como trocar? - a morte questionou.
- Tem não. Quer dizer, tem. Trocar não, mas tem como morrer.
- E só? - perguntou mortífera.
- Também é possível dar guinada.
- Como é guinada? - perguntou, perguntando a morte.
- Pintar cabelo, emagrecer. Correr, virar gostosa. Comprar roupa. Arrumar namorado careca e dizer que nunca esteve mais feliz.
- E serve para quê? - morte.
- Para os outros. Para esfregar vida na cara deles.
- E sobra algo para pessoa? - perguntou já se sabe quem.
- Contas, trabalho. Salto alto. Calo e peruca. Status!
- E status de quê?
- Status de quem vive.
A morte pensava que ninguém morria vivendo. Na verdade, ficou extasiada de felicidade, descobriu-se útil e presente na vida de tantos.
Morte amiga e cotidiana. Morte de todos os dias.
5.3.09
Perdoem-me os obstetras
Ninguém nasce sabendo de onde sai. Se fosse o caso, ficaríamos horrorizados.
Para disfarçar, o médico nos tira logo de lá, nos puxa de ponta cabeça, como quem diz: " esquece, esquece". Tapa na bunda para ajudar na superação. Peito com leite. Choro de mãe. E é assim que se nasce, meio que no susto.
Depois passa o tempo, a criança vira mulher ou homem -as duas coisas, quem sabe - todos crescidos. O nascimento se torna acontecimento remoto.
As mulheres se enfeitam com jóias, calçam sapatos altíssimos, usam apliques, unhas postiças, pintas artificiais. Os homens andam como pinguins, fumam charutos cubanos. Carros imponentes, deixam a barriga crescer: gordos e satisfeitos que estão.
Tudo isso, lhe digo, tudo isso para esquecer de onde vieram. Lá dentro das partes baixas da mulher. Admito ser uma verdade muito dolorida. Haja pó de arroz para afastar a tristeza e haja uísque para se afastar dessa tragédia.
Leitor, não sei se é o seu caso ter nascido de cesárea e evitado caminhos estreitos. Entretanto, tenciono relembrá-lo que, de qualquer maneira, somos iguais e não importa que seja um desviante daqueles que nascem pela barriga. Fato é, que se não lhe tirassem por ali, teria saído acolá - se é que me entende.
Ninguém no mundo inteiro esperava por esse escândalo. Ter um filho pertinho de onde sai o xixi.
O que me leva a crer que o nascimento tem um caráter pedagógico, assim como a morte tem. É apontar com frieza e racionalidade de onde viemos e para onde iremos.
Não importa quantas lasanhas você comeu ou se usava óculos escuros. Saímos de um buraco para cairmos em outro. Desculpe-me a franqueza.
Para disfarçar, o médico nos tira logo de lá, nos puxa de ponta cabeça, como quem diz: " esquece, esquece". Tapa na bunda para ajudar na superação. Peito com leite. Choro de mãe. E é assim que se nasce, meio que no susto.
Depois passa o tempo, a criança vira mulher ou homem -as duas coisas, quem sabe - todos crescidos. O nascimento se torna acontecimento remoto.
As mulheres se enfeitam com jóias, calçam sapatos altíssimos, usam apliques, unhas postiças, pintas artificiais. Os homens andam como pinguins, fumam charutos cubanos. Carros imponentes, deixam a barriga crescer: gordos e satisfeitos que estão.
Tudo isso, lhe digo, tudo isso para esquecer de onde vieram. Lá dentro das partes baixas da mulher. Admito ser uma verdade muito dolorida. Haja pó de arroz para afastar a tristeza e haja uísque para se afastar dessa tragédia.
Leitor, não sei se é o seu caso ter nascido de cesárea e evitado caminhos estreitos. Entretanto, tenciono relembrá-lo que, de qualquer maneira, somos iguais e não importa que seja um desviante daqueles que nascem pela barriga. Fato é, que se não lhe tirassem por ali, teria saído acolá - se é que me entende.
Ninguém no mundo inteiro esperava por esse escândalo. Ter um filho pertinho de onde sai o xixi.
O que me leva a crer que o nascimento tem um caráter pedagógico, assim como a morte tem. É apontar com frieza e racionalidade de onde viemos e para onde iremos.
Não importa quantas lasanhas você comeu ou se usava óculos escuros. Saímos de um buraco para cairmos em outro. Desculpe-me a franqueza.
20.2.09
Ressentimento
Escrevendo sob encomenda renego o meu tema. De cara e sem pestanejar. Aviso logo que falarei sobre escavações mineralógicas. Fósseis. Ponto-cruz. Trânsito.
Falar sobre ressentimento é como repetição. Pisar mil vezes na mesma poça. Sujar mil vezes o sapato.
Ressentimento é apego ao amargo. É chupar um dedo azedo. É guardar vômito para cheirá-lo ocasionalmente.
Ressentimento é miolo de pão. Com água, incha.
Preenche espaço que poderia ser utilizado para torta de maçã. É como comer cinco quilos de farinha antes de um banquete. É o mesmo que se alimentar de olhos de minhoca: ineficaz. Não funciona, não presta.
Ressentimento é um ciclo vicioso de maltratar o coração com o passado.
O certo é matar os sentimentos(-re). Uma lesma morre com sal sobre ela. E sentimentos prescritos serão superados com a boa dose de presente. Coisas leves que extraímos das árvores, do céu azul, do pássaro colorido.
Funciona como sal, como bálsamo.
Mudemos de assunto, porque isso já passou.
Falar sobre ressentimento é como repetição. Pisar mil vezes na mesma poça. Sujar mil vezes o sapato.
Ressentimento é apego ao amargo. É chupar um dedo azedo. É guardar vômito para cheirá-lo ocasionalmente.
Ressentimento é miolo de pão. Com água, incha.
Preenche espaço que poderia ser utilizado para torta de maçã. É como comer cinco quilos de farinha antes de um banquete. É o mesmo que se alimentar de olhos de minhoca: ineficaz. Não funciona, não presta.
Ressentimento é um ciclo vicioso de maltratar o coração com o passado.
O certo é matar os sentimentos(-re). Uma lesma morre com sal sobre ela. E sentimentos prescritos serão superados com a boa dose de presente. Coisas leves que extraímos das árvores, do céu azul, do pássaro colorido.
Funciona como sal, como bálsamo.
Mudemos de assunto, porque isso já passou.
13.1.09
Josefina em prantos
A música que você toca é o que já foi melodia em mim
O ritmo das suas batidas é o balanço dos meus pés
A estupidez das suas palavras brotaram do meu riso.
Música babaca a sua, porque o que se toca
. já passou em mim.
As partituras
estacionaram
no esquecimento.
Eu marcho para as trombetas.
Flautas dulcíssimas
A minha melodia não se toca duas vezes
Nas minhas veias nunca corre o mesmo sangue. Não escorre igual.
Há anos que percorri o universo, trago em mim resquícios do céu.
Não há alegria que não brote nos meus lábios
aquela música é eco
Ouça o que lhe digo agora:
O som de
mim
percorre todos os espaços
Bata seus passos, marque seu compasso na terra.
Então venha me procurar.
Traga um árco-íris nas mãos e flores entrelaçadas no peito
Que a sua boca emane amor para alimentar uma alma inteira
Traga a luz do infinito até os meus olhos
que suas mãos encerrem oito mares
Serre a podridão da desesperança
Enxerte sonho
seja Homem
Seja homem.
O ritmo das suas batidas é o balanço dos meus pés
A estupidez das suas palavras brotaram do meu riso.
Música babaca a sua, porque o que se toca
. já passou em mim.
As partituras
estacionaram
no esquecimento.
Eu marcho para as trombetas.
Flautas dulcíssimas
A minha melodia não se toca duas vezes
Nas minhas veias nunca corre o mesmo sangue. Não escorre igual.
Há anos que percorri o universo, trago em mim resquícios do céu.
Não há alegria que não brote nos meus lábios
aquela música é eco
Ouça o que lhe digo agora:
O som de
mim
percorre todos os espaços
Bata seus passos, marque seu compasso na terra.
Então venha me procurar.
Traga um árco-íris nas mãos e flores entrelaçadas no peito
Que a sua boca emane amor para alimentar uma alma inteira
Traga a luz do infinito até os meus olhos
que suas mãos encerrem oito mares
Serre a podridão da desesperança
Enxerte sonho
seja Homem
Seja homem.
8.1.09
Guerra em Gaza
O mundo balança, balança e geme no fim
Um cantiga qualquer
Quais quer que sejam as notas?
Quais deveriam ser os sussurros?
De paz. De moRte.
Menino morto em Gaza.
Coração apodrecido no chão
Menina morta na foto.
coração que se desmantela na terra
Então se explodem crianças?
É verdade que o mundo acabou.
Lágrimas jorraram da minha garganta
a voz que eu tinha
silêncio
Diante das baixas
silêncio
Diante de crianças mortas
silêncio
Diante da crueldade humana
calada.
Minha alma adormeceu dentro de mim
como quem se recupera de um longo pranto
Vi as trevas em plena luz
Estava na sola dos sapatos, o sangue, a infância perdida
Jogaram uma bomba
Eu era a menor desde grande
Nossos pequeninos morreram.
Um cantiga qualquer
Quais quer que sejam as notas?
Quais deveriam ser os sussurros?
De paz. De moRte.
Menino morto em Gaza.
Coração apodrecido no chão
Menina morta na foto.
coração que se desmantela na terra
Então se explodem crianças?
É verdade que o mundo acabou.
Lágrimas jorraram da minha garganta
a voz que eu tinha
silêncio
Diante das baixas
silêncio
Diante de crianças mortas
silêncio
Diante da crueldade humana
calada.
Minha alma adormeceu dentro de mim
como quem se recupera de um longo pranto
Vi as trevas em plena luz
Estava na sola dos sapatos, o sangue, a infância perdida
Jogaram uma bomba
Eu era a menor desde grande
Nossos pequeninos morreram.
10.12.08
Há 60. dirEitos humAnos
Celebrem todos os povos
a desunião
os humanos sem direitos
a morte da matança
a raça sem pele, sem cor.
Celebrem todos. A morte das vítimas, crises fictícias.
Cantemos louvores à destruição.
Maquinação.
Uniformes.
Rotina sem flores.
Não há enterros.
Vivemos mortos todos os dias.
Nossos hálitos cheiram a desistência e nossa esperança apodreceu.
A calmaria vem do canto fúnebre.
Os pássaros compõem para o fim.
Há grave.
Há enfermos.
Sepultamento de nós mesmos.
Nasce o sol em nós?
a desunião
os humanos sem direitos
a morte da matança
a raça sem pele, sem cor.
Celebrem todos. A morte das vítimas, crises fictícias.
Cantemos louvores à destruição.
Maquinação.
Uniformes.
Rotina sem flores.
Não há enterros.
Vivemos mortos todos os dias.
Nossos hálitos cheiram a desistência e nossa esperança apodreceu.
A calmaria vem do canto fúnebre.
Os pássaros compõem para o fim.
Há grave.
Há enfermos.
Sepultamento de nós mesmos.
Nasce o sol em nós?
9.12.08
Conta de letra
O meu conto tem que ser pequeno, porque há pouco papel.
Tanto desmatamento, mas pouco papel meu.
Deve ter caído em mãos erradas e, se conteriam poesias, agora terão impostos gravados neles.
Papel escasso.
As palavras são poucas e resumidas. Sem tarifas há pouco o que falar. Sem estatísticas, pouca verdade.
Números não mentem. Pessoas sim.
Associemo-nos às calculadoras: seguras e serventes.
Nada de conversa ou fé. Promessas, projetos. Apelos.
Calculadora, não chora, nunca teve o coração partido.
Aprendamos com as coisas a nos desumanizar.
Não peça nada que não seja aritmético.
Há operações impossíveis ou extensas por demais.
Não cabe.
Sem excessos. Não há vergonha, só resultados.
Injustificado é o pranto e a insistência.
Há, repito, operações impossíveis ou extensas por demais. Não cabe.
Papel escasso, o conto tem que ser pequeno.
Pouco papel meu. Mãos erradas.
Uma pena desperdiçar essa vida literal, alfabetizada.
Porém, número é quase letra. Número é letra de contar.
Símbolo
de contos.
Para demonstrar, nos serve a seguinte expressão:
1+1=0. História antiga de duas pessoas que se amam, mas se arrancam da conta. Para ficar nada.
Zero é símbolo do vazio.
Minha esperança é que os números se rendam à poesia e, quando os empurrarem pro visor, que os símbolos da razão contem sobre o amor. Que façam as contas mais loucas.
A aritmética mais linda.
Tanto desmatamento, mas pouco papel meu.
Deve ter caído em mãos erradas e, se conteriam poesias, agora terão impostos gravados neles.
Papel escasso.
As palavras são poucas e resumidas. Sem tarifas há pouco o que falar. Sem estatísticas, pouca verdade.
Números não mentem. Pessoas sim.
Associemo-nos às calculadoras: seguras e serventes.
Nada de conversa ou fé. Promessas, projetos. Apelos.
Calculadora, não chora, nunca teve o coração partido.
Aprendamos com as coisas a nos desumanizar.
Não peça nada que não seja aritmético.
Há operações impossíveis ou extensas por demais.
Não cabe.
Sem excessos. Não há vergonha, só resultados.
Injustificado é o pranto e a insistência.
Há, repito, operações impossíveis ou extensas por demais. Não cabe.
Papel escasso, o conto tem que ser pequeno.
Pouco papel meu. Mãos erradas.
Uma pena desperdiçar essa vida literal, alfabetizada.
Porém, número é quase letra. Número é letra de contar.
Símbolo
de contos.
Para demonstrar, nos serve a seguinte expressão:
1+1=0. História antiga de duas pessoas que se amam, mas se arrancam da conta. Para ficar nada.
Zero é símbolo do vazio.
Minha esperança é que os números se rendam à poesia e, quando os empurrarem pro visor, que os símbolos da razão contem sobre o amor. Que façam as contas mais loucas.
A aritmética mais linda.
Bloco
Hoje vi um bloco de palhaços.
Tinham roupas coloridas, bolas apontadas para o céu, cara branca e vermelha.
Vi um homem sair correndo com muletas, fazer delas pernas e ficar maior do que todo mundo. É assim que se ganha títulos: "o homem da perna de pau"?!
Eles tinham bandinha. A Sete de setembro parou.
Eu. Cara na janela, sorriso no rosto.
Fui com eles, mas sem poder descer do prédio. Palhaça.
Lá de cima eu me regozijava: há gente livre enfim.
Tinham roupas coloridas, bolas apontadas para o céu, cara branca e vermelha.
Vi um homem sair correndo com muletas, fazer delas pernas e ficar maior do que todo mundo. É assim que se ganha títulos: "o homem da perna de pau"?!
Eles tinham bandinha. A Sete de setembro parou.
Eu. Cara na janela, sorriso no rosto.
Fui com eles, mas sem poder descer do prédio. Palhaça.
Lá de cima eu me regozijava: há gente livre enfim.
3.12.08
Intimem-se
Renego a vida.
Abraço a morte.
Entre, passe bem.
Autoridades
grandiloquentes em sua estupidez.
Mordaça a todos os que estão presos
As chamas e a perdição, merecimento apenas.
Atendo aos pedidos de sucumbência.
Perca você.
Apanhe a volta do mundo
Rosne seus motivos
Invejável é a sua incompetência
Reluzente sua incapacidade
Digam a todos:
Intimados estão.
Prestem os esclarecimentos
da sua ignorância
Vão caminhando ao topo do abismo
Abraço a morte.
Entre, passe bem.
Autoridades
grandiloquentes em sua estupidez.
Mordaça a todos os que estão presos
As chamas e a perdição, merecimento apenas.
Atendo aos pedidos de sucumbência.
Perca você.
Apanhe a volta do mundo
Rosne seus motivos
Invejável é a sua incompetência
Reluzente sua incapacidade
Digam a todos:
Intimados estão.
Prestem os esclarecimentos
da sua ignorância
Vão caminhando ao topo do abismo
29.10.08
São meus pés que movem os mundos. É a resistência contra o chão que produz o giro.
Terra rodando porque eu corro, porque é avante o meu caminho.
....
Nem toda música é samba, nem toda música é rock.
Existe música minha, existe música
no povo;
no poço;
no podre. No podre há canção. Canções putrefeitas.
O sibilar dos muros: é música. O carroar dos carros: canção.
Cantem todos o movimento do sangue. Batuques e percussão do peito.
Terra rodando porque eu corro, porque é avante o meu caminho.
....
Nem toda música é samba, nem toda música é rock.
Existe música minha, existe música
no povo;
no poço;
no podre. No podre há canção. Canções putrefeitas.
O sibilar dos muros: é música. O carroar dos carros: canção.
Cantem todos o movimento do sangue. Batuques e percussão do peito.
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