17.4.09

Futurando

Ainda é amor pequeno
daqueles que nascem com preguiça e prudência.

Ainda é bem semente, mamão verde, mingau em pó.
Falta aquecer, borbulhar, mudar de cor e de gosto.
Falta o céu e a terra reconhecerem o ar.
Falta as estrelas furarem nuvens nubladas.
Descortinar. Desenvolver. Disseminar.

E quando as bocas forem par e os olhos quartetos. Quando o hálito for do outro.
Teremos mais alimento. Faremos banquetes de alegria e serviremos as melhores risadas.
Vai ser bom. Tênue e puro.

14.4.09

Mestre-Deus

Passeando por entre palavras ditosas, vi Deus estampado em parábolas. Rodopiei meus olhos por entre vocábulos e achei alimento e achei bondade.
Percebi Jesus-Deus e enxerguei sem ver nada. Não por ser escuro, mas porque luz demais lustra a alma e faz tremilicar. E nesse tremilique de espírito: chamado de temor, tremor; eis que meu mundo girou com um sentido a mais.
Sentido de quem dorme, mas não vacila; de quem cansa, mas não pára. Segurança de quem morre, mas ressurge. E por mais que a Cristandade ficasse perplexa, o próprio Cristo não deixou de ser aborrecido, cansado e abatido. E o próprio Jesus foi traído, rasgado e humilhado. E o próprio Emanuel se compadeceu de quem o extirpava do coração.
Deus é assim mesmo: se ira com imensa compaixão e mata o celestial para salvar-nos, profanos. Porque Deus se joga na lama e permanece majestoso e puro. Faz brilhar esperança nos desgraçados. Deus é todo cheio de páscoa e natal. Cheio de remissão e oportunidades.
Deus é um tanto extravagante.

10.4.09

Peito de frango
Olho de garça
Nariz de morcego
Cauda de troll

Comida dos vizinhos, cheiro bom. Quero comê-los.

9.4.09

Mortidão

A morte veio ter comigo. Aborrecida, mandei que tomasse conta da sua própria vida. A morte, coitada, sem saber como existir, arregalou os olhos e encolheu os ombros.

- E como? - a morte soou.
- Não sei bem. A gente vive sem saber como funciona. Uma espécie de amostra grátis por tempo indefinido.
- E se não gostar, tem como trocar? - a morte questionou.
- Tem não. Quer dizer, tem. Trocar não, mas tem como morrer.
- E só? - perguntou mortífera.
- Também é possível dar guinada.
- Como é guinada? - perguntou, perguntando a morte.
- Pintar cabelo, emagrecer. Correr, virar gostosa. Comprar roupa. Arrumar namorado careca e dizer que nunca esteve mais feliz.
- E serve para quê? - morte.
- Para os outros. Para esfregar vida na cara deles.
- E sobra algo para pessoa? - perguntou já se sabe quem.
- Contas, trabalho. Salto alto. Calo e peruca. Status!
- E status de quê?
- Status de quem vive.

A morte pensava que ninguém morria vivendo. Na verdade, ficou extasiada de felicidade, descobriu-se útil e presente na vida de tantos.
Morte amiga e cotidiana. Morte de todos os dias.

30.3.09

Pá, pá

Andando, virando mil rodas de estrelas e cânticos jubilosos.
Amor de névoas, de nuvens tão lindas
E é vento no rosto
pulo de leveza
E a gente corre, desconcerta e vive morrendo de vontade de ser
Mas ninguém sabe
Todos ignoram a vontade de transmutar-se para outro tipo de ser que possa explodir sempre que haja muito luto
E a gente luta, briga, anda por túneis, cava uma vida inteira
Faz coroa de pétalas
Nuveando
Matando nossas mortes diárias
Acreditando em amores vindouros perfeitos
Infundíveis com a tristeza
Fantasiados de delícias
Vestidos de doçura
Com voz macia e música pelos pêlos
Caminha, saltando, correndo, sorrindo por estar
E vai para um lado
joga para o outro
Balanço do som
Nublado, chuva, chuva
Medo, frio, escuro. Solidão. Vertigem
Sol, arco-íris
Beleza. Beleza
Alívio.
Tirando os agasalhos, o inverno passou, é tempo de flores
E eu vou, germinando no mundo
E eu canto
Eu luto por vidas alheias e minhas
E luto por sonhos tão puros e bons.
Sem que nada se perca
Sem que nada se esvazie. Sem que tudo me extrapole
Sem desistir de não caber no mundo
E eu ponho óculos pra ver o sol E escovo os dentes para comer pedras.
Nada se sabe.

29.3.09

Poesia

Você andou me perguntando quando iremos gritar poesias e lhe digo: Agora e para sempre! Para os oito cantos do Universo e por toda eternidade brademos com força: Cristo vive e reina em nós.
Aleluia, pois cantemos.

Alma bonita e flutuante. Deus macio e de paz bondosa.
Remissão da podridão que fomos.

Vamos cantar poesias: pouso perene de Deus em nosso peito.