Tem horas que a gente cisma e é um sacrilégio daqueles. Veja bem, hoje é dia de Zumbi, assim, sorumbáticos mesmo, comemoraríamos o dia. Da consciência negra. Eu, meio pálida, fiquei observando a falta de honraria.
É que hoje, caminhando pelo meu bairro Americano, vi uma feira. E pensei: “Ora essa, não é feriado?”. Não. Ó, não! Meu corpo tremeu todo diante daqueles melões e morangos e laranjas. Uvas sem caroço. Bem no dia de Zumbi, ali, sendo comercializadas. Frutas em troco de dinheiro. Aquele capitalismo selvagem, de pessoas com olhos coloridos, com caldo de cana dentro da boca. Fiquei horrorizada.
Foi quando gritei. Larguei a bolsa que carregava, abri a boca bem pro alto e gritei. “Não!”. Enchi os pulmões e prolonguei as vogais o máximo que pude. Mas não deu certo, não deram a mínima bola. Meu descontentamento foi enorme quando uma jovem senhora pediu licença, porque queria ver os kiwis e eu estava na frente.
A minha reação foi correr, procurando meu lar. Chegando, vi meu irmão dando banho na cachorra. Ufa. Banho em cachorra. Só em dias especiais. Acredite. A paz então recobrou seu espaço e me aquietei.
Almocei. Fui dormir. Aquele soninho dos justos. Cochilei suando no verão que se instalava no meu quarto. E só acordei porque, pasme, um senhor começou a gritar na minha janela.
Atordoada e de pijamas ridículos, eu disse: “Meu senhor, eu estava dormindo e o senhor gritando me despertou. Fale em voz silenciosa, por favor.”
O senhor me falou: “Querida, sou vendedor de flores, não gostaria de comprar pétalas?”
Sonolenta, respondi: “Mas hoje é feriado, é dia de fazeção de nadaísmo.”
Resignado, o vendedor proclamou: “Então lhe vendo flores em botão. É flor de nada.”
Perguntei: “E quanto custa?”
O vendedor sorriu: “Custa um amor.”
“Não tenho.”
“Nenhum? Nem no passado?”
“Serve do passado?”
“Não.”
O vendedor ficou todo triste olhando pro chão e arrumando as pedrinhas com a ponta dos pés. Até eu fiquei decepcionada, logo num feriado tão consciente acontecer uma coisa dessas. Passou um tempinho e o sol começou a murchar também, o céu ficou todo desmantelado, deixando as cores escoarem pelo horizonte. Como já estava anoitecendo, resolvi permanecer de pijamas.
Sentei do lado da cama. O vendedor permanecia lá fora, empunhando as flores. Sentou na calçada. Quando a noite chegou mesmo, a lua veio fininha, pois estava desanimada com a notícia.
“Falta à moça um amor”, diziam.
Lá estava a lua. Fingida. Toda boazinha e delicada.
O vendedor começou a cantar, era uma música tão linda. O vento se sentiu mais leve e começou a soprar a melodia. Eu fui ouvindo. Ele cantava sobre amores extensos e profundos. Sobre pegar de mão, sorriso trêmulo.
E eu lá sentada, na minha cama de madeira. Com lençóis de cor clara. O pesar não se colava no meu peito, pelo contrário. As ondas do som fluíam e meu cabelo ficou mexendo suave. Gostoso.
Acabei adormecendo de novo. Dia de feriado sempre me bate um cansaço. Lá dentro dos meus olhos fechados, senti me beijarem a testa e me falarem baixinho: “Um dia lhe trago suas flores, meu bem.”
20.11.09
16.11.09
Esquina
Outro dia parei na esquina da minha alma
e fiquei
ali
aguardando quem cruzaria aquele espaço.
Não houve pessoa corpórea
quem apareceu foi uma figura mitológica
ele tinha nariz de plástico vermelho
cabelo de peruca, em dois tufos
laterais
a boca dele era pintada e
nos olhos havia desenhos
a sua roupa era colorida
com bolinhas
e pendurada por um suspensório
roupa que se segura nos ombros
dentes amarelos e
aspecto de fantasia
seria lícito aparecer um
palhaço
quando estamos ouvindo piano e com ares de quem
fuma um charuto de flores?
que gracinha
que tamanco saltitante
sapateado
na esquina de mim: um espetáculo informal
do que seja simples e antigo
o palhaço ri pra mim
uma menina sapateia
eia! Sou eu! Com aqueles sapatos
sou a pareja dele
e juntos
balançamos o corpo numa dançazinha ridícula
daqueles que se divertem
de repente
recomeça aquela música clássica
lenta
com coro
e em francês
de repente
em um reflexo inesperado
eu me crio asas
e o palhaço vira
aurora boreal
que lindo!
aquelas nuvens de céus
percorrendo meu corpo
seria isso amor?
ou poesia?
- imaginação! – grita o palhaço.
depois de passado tudo isso
depois dos olhos abertos
depois que desdobrei a dita esquina e a fiz rua reta
me rio eu
me deságuo toda
me percorro
em sensações inventadas.
e fiquei
ali
aguardando quem cruzaria aquele espaço.
Não houve pessoa corpórea
quem apareceu foi uma figura mitológica
ele tinha nariz de plástico vermelho
cabelo de peruca, em dois tufos
laterais
a boca dele era pintada e
nos olhos havia desenhos
a sua roupa era colorida
com bolinhas
e pendurada por um suspensório
roupa que se segura nos ombros
dentes amarelos e
aspecto de fantasia
seria lícito aparecer um
palhaço
quando estamos ouvindo piano e com ares de quem
fuma um charuto de flores?
que gracinha
que tamanco saltitante
sapateado
na esquina de mim: um espetáculo informal
do que seja simples e antigo
o palhaço ri pra mim
uma menina sapateia
eia! Sou eu! Com aqueles sapatos
sou a pareja dele
e juntos
balançamos o corpo numa dançazinha ridícula
daqueles que se divertem
de repente
recomeça aquela música clássica
lenta
com coro
e em francês
de repente
em um reflexo inesperado
eu me crio asas
e o palhaço vira
aurora boreal
que lindo!
aquelas nuvens de céus
percorrendo meu corpo
seria isso amor?
ou poesia?
- imaginação! – grita o palhaço.
depois de passado tudo isso
depois dos olhos abertos
depois que desdobrei a dita esquina e a fiz rua reta
me rio eu
me deságuo toda
me percorro
em sensações inventadas.
11.11.09
Pendura
A vida, meu caro, é um penduricalho
E penso que somos nós, viventes, as suas hastes
Seríamos para enfeite
ou é por vitalidade que vivemos?
Quem sabe?
E penso que somos nós, viventes, as suas hastes
Seríamos para enfeite
ou é por vitalidade que vivemos?
Quem sabe?
3.11.09
Medonho
Aqui, neste lugar, se fala particularmente de um medo estrangulante. O medo do futuro não renovável, do presente perecível como pêra madura. O apodrecimento do gostoso da vida...assim, impune.
Nas frutas há muita água e no mar, muita leguminosidade. Inversão: o sólido escoa e o líquido lhe prende. Em observação contumaz, se vê o tanto de loucura que há no mundo. O mundo pêra madura.
Perceba que ontem fui dormir na minha outra casa e ouvi o mar entrando no quarto pela janela. Não era vento, era mar, ele tinha ondas e tentáculos. E conforme eu ia ressonando, o mar ia se instalando todo oceano ao meu redor. Transformei-me numa ilha, cheia de diversidades tropicais. Eu não tinha mais cama, eu levitava na água azul.
E não sei explicar como, mas eu enxergava tudo de olhos fechados. No quarto daquela minha outra casa é tudo muito escuro e a noite não apresenta nem sequer sombras, nem penumbras. Onde os olhos são inúteis, eu via com absoluta clareza. Aquele mar desperto a me sequestrar.
Antes de dormir eu estava mesmo me sentindo com vontades de invocá-lo e tê-lo assim, mais de perto, mas não tive coragem. Na verdade, eu amava o mar pois sabia como era ser de uma finitude infindável e sabia como era navegar em si mesmo. Eu e o mar somos caminhos e somos ancoradouro. Profundezas e praia.
Mas naquele dia, ontem mesmo, quando fui surrupiada, os meus pés estavam tão fincados no chão que eu adormeci. E tive sonhos estranhos: de pêssegos podres, de colares de peixes, de pessoas distantes. Meu coração se afundou dentro de mim, todo esquisito, foi buscar algum consolo no meu fígado, se descolou das artérias e foi parar no meu pé.
Foi quando senti que meus pés estavam pulsando, foi quando senti que estava plantada na terra. O mar veio me visitar e me lembrar de quantos tons somos coloridos e de quantas espumas peroladas são feitos nossos risos.
Ressurge então o início da história, do mar na janela da minha outra casa e eu ilhando, oceânica.
O mar foi me resgatar do solo firme em que eu me afogava, pois que eu morro de estar seca. A sequidão me traz pavores intensos. Eu sou marítima.
Era mesmo de noite e a água do mar estava bem gelada, os pêlos do meu corpo se eriçaram de um prazer meio frio. Oscilando estre a consciência e o delírio, eu fui sendo boiada pelas escadas, até que estava no terraço daquela minha outra casa. Passei pela porta aberta pela correnteza. Fiquei na altura do teto, o mar escoava por entre as grades, mas não caia no chão da rua. O mar flutuava. Pensei que ficaria retida. Aprendi uma coisa: na retidão é que se apresenta o que há de extraordinário. O mar me engoliu todinha e eu virei liquefeita. Ele prendeu minhas narinas e me deu golinhos de ar. Bebi ar pela boca do mar.
Já na rua, a flutuação do mar me aguardava, senti um questionamento: em que praia desembocaremos? Falei com a boca cheia de bolhas.
Praia dos Anjos ou Praia Grande?
O mar fez carinho nos meus cabelos e disse:
Vamos subir o Pontal do Atalaia, vamos para o mar aberto.
Quem já foi lá naquela outra casa, sabe o que o Morro é bem de frente e que o mar fica bem atrás dele. Casa-morro-mar. A partir daí, foi uma morrência relativamente rápida e num piscar de olhos eu já estava desaguando. O mar estava muito carinhoso e solidário. Sempre me chamava de peixinho. A sensação de alívio perpétuo me inundava.
Desde ontem vivo no mar. E não consigo entender como fui nascer tão longe da minha pátria.
Ainda bem que voltei. Mar adentro.
As janelas devem estar sempre abertas.
Nas frutas há muita água e no mar, muita leguminosidade. Inversão: o sólido escoa e o líquido lhe prende. Em observação contumaz, se vê o tanto de loucura que há no mundo. O mundo pêra madura.
Perceba que ontem fui dormir na minha outra casa e ouvi o mar entrando no quarto pela janela. Não era vento, era mar, ele tinha ondas e tentáculos. E conforme eu ia ressonando, o mar ia se instalando todo oceano ao meu redor. Transformei-me numa ilha, cheia de diversidades tropicais. Eu não tinha mais cama, eu levitava na água azul.
E não sei explicar como, mas eu enxergava tudo de olhos fechados. No quarto daquela minha outra casa é tudo muito escuro e a noite não apresenta nem sequer sombras, nem penumbras. Onde os olhos são inúteis, eu via com absoluta clareza. Aquele mar desperto a me sequestrar.
Antes de dormir eu estava mesmo me sentindo com vontades de invocá-lo e tê-lo assim, mais de perto, mas não tive coragem. Na verdade, eu amava o mar pois sabia como era ser de uma finitude infindável e sabia como era navegar em si mesmo. Eu e o mar somos caminhos e somos ancoradouro. Profundezas e praia.
Mas naquele dia, ontem mesmo, quando fui surrupiada, os meus pés estavam tão fincados no chão que eu adormeci. E tive sonhos estranhos: de pêssegos podres, de colares de peixes, de pessoas distantes. Meu coração se afundou dentro de mim, todo esquisito, foi buscar algum consolo no meu fígado, se descolou das artérias e foi parar no meu pé.
Foi quando senti que meus pés estavam pulsando, foi quando senti que estava plantada na terra. O mar veio me visitar e me lembrar de quantos tons somos coloridos e de quantas espumas peroladas são feitos nossos risos.
Ressurge então o início da história, do mar na janela da minha outra casa e eu ilhando, oceânica.
O mar foi me resgatar do solo firme em que eu me afogava, pois que eu morro de estar seca. A sequidão me traz pavores intensos. Eu sou marítima.
Era mesmo de noite e a água do mar estava bem gelada, os pêlos do meu corpo se eriçaram de um prazer meio frio. Oscilando estre a consciência e o delírio, eu fui sendo boiada pelas escadas, até que estava no terraço daquela minha outra casa. Passei pela porta aberta pela correnteza. Fiquei na altura do teto, o mar escoava por entre as grades, mas não caia no chão da rua. O mar flutuava. Pensei que ficaria retida. Aprendi uma coisa: na retidão é que se apresenta o que há de extraordinário. O mar me engoliu todinha e eu virei liquefeita. Ele prendeu minhas narinas e me deu golinhos de ar. Bebi ar pela boca do mar.
Já na rua, a flutuação do mar me aguardava, senti um questionamento: em que praia desembocaremos? Falei com a boca cheia de bolhas.
Praia dos Anjos ou Praia Grande?
O mar fez carinho nos meus cabelos e disse:
Vamos subir o Pontal do Atalaia, vamos para o mar aberto.
Quem já foi lá naquela outra casa, sabe o que o Morro é bem de frente e que o mar fica bem atrás dele. Casa-morro-mar. A partir daí, foi uma morrência relativamente rápida e num piscar de olhos eu já estava desaguando. O mar estava muito carinhoso e solidário. Sempre me chamava de peixinho. A sensação de alívio perpétuo me inundava.
Desde ontem vivo no mar. E não consigo entender como fui nascer tão longe da minha pátria.
Ainda bem que voltei. Mar adentro.
As janelas devem estar sempre abertas.
25.10.09
Repetição
Vamos fazer poesias modestas
Vamos brincar de cantar
Vamos cantar de fazer riso
Vociferar. Vociferar.
Arrastar a tristeza para longe
E ali fincar o amor
Vamos pular de alegria
Vamos dançar de rodar
Vamos correr para o alto
Movimentar. Movimentar.
Até chegar o amor
Vamos olhar para cima
Vamos lutar para vencer
Vamos falar com estrelas
Endoidecer. Endoidecer.
Vamos brincar de cantar
Vamos cantar de fazer riso
Vociferar. Vociferar.
Arrastar a tristeza para longe
E ali fincar o amor
Vamos pular de alegria
Vamos dançar de rodar
Vamos correr para o alto
Movimentar. Movimentar.
Até chegar o amor
Vamos olhar para cima
Vamos lutar para vencer
Vamos falar com estrelas
Endoidecer. Endoidecer.
11.10.09
Enlace
Outro dia me falaram de amor
e eu, abobalhada, fiquei sorvendo
Fui num casamento de almas.
Ah, não se pode imaginar a densidade do véu,
o brilho do branco que se arrasta em cauda.
Noiva deve ser feita de nuvem.
Aqueles passos marcados,
é ela a própria música.
Invade a sagrada igreja com a pretensão de selar o infinito
com a coragem de um sorriso trêmulo
faz brilhar o colorido
faz brilhar
o apagado das coisas:
reluzir
o padre disse
"vocês prometem amor eterno e fidelidade perene?"
todos na igreja gritaram
"sim"
nós cremos
cremos nas escrituras
em deus trino
em jesus vivo
no amor de adão e eva
invocamos que o amor seja verdadeiro
e sobeje em nossos corações
e se case em nossas vidas
imploramos
para que fiquemos impunes
por dar-se em amor
junção
esta
como um fio indestrutível de esperança
e eu, abobalhada, fiquei sorvendo
Fui num casamento de almas.
Ah, não se pode imaginar a densidade do véu,
o brilho do branco que se arrasta em cauda.
Noiva deve ser feita de nuvem.
Aqueles passos marcados,
é ela a própria música.
Invade a sagrada igreja com a pretensão de selar o infinito
com a coragem de um sorriso trêmulo
faz brilhar o colorido
faz brilhar
o apagado das coisas:
reluzir
o padre disse
"vocês prometem amor eterno e fidelidade perene?"
todos na igreja gritaram
"sim"
nós cremos
cremos nas escrituras
em deus trino
em jesus vivo
no amor de adão e eva
invocamos que o amor seja verdadeiro
e sobeje em nossos corações
e se case em nossas vidas
imploramos
para que fiquemos impunes
por dar-se em amor
junção
esta
como um fio indestrutível de esperança
5.10.09
Curso de poesia
Compareci a uma oficina de poesia.
Os poetas começaram a pegar penas e vestir gravata borboleta. Eu estava lá de aluna ouvinte, por isso me vendaram os olhos e taparam minha boca com fita adesiva. Cheirar podia. A sala tinha cheiro de perfume de mulher bonita. Mas daquela mulher que faz comida gostosa, que come manga sentada no portão, que tem sorriso branco e tranquilo. Aquele cheiro era tão gostoso.
Na oficina todos tinham olhos coloridos. Com duas ou mais cores. Era requisito básico. Eu mesma, para entrar, tive que arregalar bem os olhos e me fazer de vesga (para eles conseguirem ver os cantinhos da minha íris).
Aqueles poetas trabalhavam muitíssimo. Uns ficavam horas olhando para um passarinho, outros concentrados em seu amor platônico. O mais incrível era quando nascia uma poesia em voz alta: eles se levantavam de súbito em reverência à Inspiração. Eles achavam que a Inspiração vinha do Deus, então se punham de pé, como que em louvor.
Há casos de pessoas que escreveram um só verso em quarenta anos, mas todos os dias se erguiam eretos em reverência, pois sempre se sentiam poemando. Pois sempre se sentiam em Deus.
Era comum que eles contassem piadas, era comum que eles se abraçassem chorando. Eu achei esquisito que usassem bermudas e gravatas. Mas me explicaram que era apenas uma questão de estilo e que já houve épocas que eles usassem blusões floridos ou ternos.
Depois de acabada a oficina, perguntei como fazia para me inscrever e ser perene com eles, no que um ancião me respondeu:
- Para ser poeta devemos estar em todos os tempos. Escrever para o sempre. É proibido viver em futuro do nosso passado. Devemos abandonar nossas glórias e vergonhas, devemos nos despir. Inventar. Delirar. Saborear. E quando se der do poema brotar quente em nossas mãos, levantar-se submisso.
Perguntei porque eles não se prostravam, se não seria mais adequado do que ficar de pé, mas um jovem poeta disse:
- Menina, quando ficamos de pé diante de Deus, imenso como ele é atestamos: somos pequenos, nosso corpo é miúdo, nossa alma restrita. E Deus gigante nos beija a face com amor.
Um senhor disse:
- Cada poesia que goteja no mundo é o amor de Deus que transbordou de si mesmo.
Apressada, eu falei para eles:
- Quero ser poeta.
E assim me responderam:
- Então, coloque-se de pé, eis que agora você se nasceu poesia.
Os poetas começaram a pegar penas e vestir gravata borboleta. Eu estava lá de aluna ouvinte, por isso me vendaram os olhos e taparam minha boca com fita adesiva. Cheirar podia. A sala tinha cheiro de perfume de mulher bonita. Mas daquela mulher que faz comida gostosa, que come manga sentada no portão, que tem sorriso branco e tranquilo. Aquele cheiro era tão gostoso.
Na oficina todos tinham olhos coloridos. Com duas ou mais cores. Era requisito básico. Eu mesma, para entrar, tive que arregalar bem os olhos e me fazer de vesga (para eles conseguirem ver os cantinhos da minha íris).
Aqueles poetas trabalhavam muitíssimo. Uns ficavam horas olhando para um passarinho, outros concentrados em seu amor platônico. O mais incrível era quando nascia uma poesia em voz alta: eles se levantavam de súbito em reverência à Inspiração. Eles achavam que a Inspiração vinha do Deus, então se punham de pé, como que em louvor.
Há casos de pessoas que escreveram um só verso em quarenta anos, mas todos os dias se erguiam eretos em reverência, pois sempre se sentiam poemando. Pois sempre se sentiam em Deus.
Era comum que eles contassem piadas, era comum que eles se abraçassem chorando. Eu achei esquisito que usassem bermudas e gravatas. Mas me explicaram que era apenas uma questão de estilo e que já houve épocas que eles usassem blusões floridos ou ternos.
Depois de acabada a oficina, perguntei como fazia para me inscrever e ser perene com eles, no que um ancião me respondeu:
- Para ser poeta devemos estar em todos os tempos. Escrever para o sempre. É proibido viver em futuro do nosso passado. Devemos abandonar nossas glórias e vergonhas, devemos nos despir. Inventar. Delirar. Saborear. E quando se der do poema brotar quente em nossas mãos, levantar-se submisso.
Perguntei porque eles não se prostravam, se não seria mais adequado do que ficar de pé, mas um jovem poeta disse:
- Menina, quando ficamos de pé diante de Deus, imenso como ele é atestamos: somos pequenos, nosso corpo é miúdo, nossa alma restrita. E Deus gigante nos beija a face com amor.
Um senhor disse:
- Cada poesia que goteja no mundo é o amor de Deus que transbordou de si mesmo.
Apressada, eu falei para eles:
- Quero ser poeta.
E assim me responderam:
- Então, coloque-se de pé, eis que agora você se nasceu poesia.
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