17.6.12

Sem títulos


Rápido demais.
Coração sai pela boca.
Coração, coração.
Coraçao cai pela boca.

Sai.
Cai

Coração sai bela boca.
fala.

.
Pela boca. Rápido demais.
bela
Demais, coração.
Sai, cai demais, coração.
tropeça demais
coração.

coração para
coração para quê?

3.6.12

Antes de dormir


E as coisas nunca mais serão como antes.
O lugar onde fomos não existe mais. As cores que beijaram nossos olhos. Não serão as mesmas.

E os sorrisos se abrirão de outra forma. Nossos novos dentes rasgarão o passado, mastigando o que foi. E o que foi bom.
Foi tão bom. Ficaremos carecas de novo. Nossa mão será pequena, ornada por unhas mini.núsculas. E nossos pés vão voltar a crescer, ciclicamente.
Nossos avós estarão vivos, falantes. Mas sem existir. Os nossos filhos terão nomes e sapatos.

Um ressurgimento louco. Você me verá mais velha. O tempo que eu espero vai matando a desesperança. Cada dia é mais perto. De ver de novo. A encarnação do meu sossego.

E como deve ser o céu?
A partir de quando isso vai acontecer?
E quando posso descansar. Sim, o seu ombro é bom. Sim, minha cabeça dói. Ah, será para sempre. Como dormir em nuvem. Não, sem medo. Meus avós viverão. Aquelas flores coloridas. Serão outras mais bonitas. E eu vou lhe ver de novo. Mais velha. Bem mais velha. O tempo demora. O sono começa a. Minhas mãos pequenas.

Aquele cheiro de terra. O capim cortando minhas pernas. minhas  pernas. corre; corre! corrrrro! aaaarrrr corro muito. pulo pedras. O barco está chegando. Venha, rápido. Já ouço o som. Sem tropeçar. Chegamos antes. Lá vem eles. Vamos mergulhar um pouco. Fomos no farol. Lá em cima.

As cores não voltam. O vento mora nos meus olhos. Aqueles beijos. Na testa. Boa noite. Na boca. Te amo. Nos olhos, minha pequenina. Sussurro: volta logo.

Aquela música que você cantou para mim. Não importa. Vai ser para sempre minha, por mais que você se vá. Por mais. Tudo é meu. Todos os pensamentos. As sensações. Os espirais. Os choros, gargalhadas. Misturadas. Confusas. O mar. Oceanos. Mel. Suco. Areia. Manga. Lábios. Lábios. Corre. Arfa. Se esconde.

O sono vem.

25.5.12

Quando nós nascemos

Eu lembro bem do dia em que anunciaram o nascimento da minha irmã. Eu não sabia muito bem das coisas. As pessoas me direcionavam e me davam espaço. Como sístole e diástole. Põe sua roupa nova, sua irmã nasceu. No hospital? No hospital. Eu pus a roupa e esperei. Os adultos se aprontarem. Quem eram os adultos? Só lembro das pernas, andando. Excitadas.

Aliás, isso me faz lembrar a primeira vez que eu consegui ver além do balcão do banco. Banco Nacional. Faliu.  Pois é. A primeira vez que pus por meus olhos no ser bancário, por mim mesma, sustentada pelas minhas próprias pernas, eu lembro. Todos as vezes anteriores meus pais me suspendiam. E suspiravam: O que você quer tanto ver?...Eu quero ver, ué?! O outro lado. Como as coisas são.
Meu pedido era tão genuíno que eles me suspendiam sempre. O funcionário sorria para mim e três segundos depois a situação era insustentável, minhas axilas já estavam ardendo. Dói ser levantada pelo suvaco. Toda minha existência era apoiada nas minhas axilas infantis, precisei ter suvacos fortes para enxergar o mundo. Por uns instantes.

Eu tinha problemas práticos a resolver dentro da minha cabeça. Muitos adultos haviam tentado me conscientizar que eu precisava ser uma menininha boa e ajudar mamãe a cuidar da irmãzinha. Por que tantos diminutivos? Elas encolheram por algum acaso ou só para demonstrar como elas eram fofinhas, muito fofinhas?
Não iria ser fácil. mas prometi a mim mesma me manter limpa, sem pirraças, dividir bonecas. Ok, tudo o que meu ofício exigisse. Eu me renderia. Mas onde ela estava? Eu precisava colocar um nome na minha irmã. A coitada tinha nascido sem nome. E eu não sabia se ela mais para Patrícia ou mais para Gabriela.
Gabriela. Quando eu vi minha mãe no hospital. Não, não. Primeiro vi freiras. Eu tinha medo de freiras e meu pai falou que se eu corresse pelos corredores, elas iriam me pegar. Mais medo de freiras.
Gabriela. Eu vi minha mãe no hospital deitada, deitada na cama, na verdade. Ela estava cansada. Pegou a Gabi pequenininhazinha. Ela era mesmo fofinha. Podia ficar com todas as bonecas.
Cuidado, Viviane, ela é muito pequena. Pega na mãozinha dela. Eu estiquei meu dedo e ela agarrou.
Ela agarrou mãe! Ela agarrou!!
Bem, esse foi nosso primeiro aperto de mão. Eu era criança, mas eu já conhecia alguns símbolos das pessoas maduras. A Gabriela era muito madura para idade dela. Ela queria uma parceria. Eu aceitei. Depois, ela me mostrou as gengivas. Jesus! Ela não tinha dente. Meu deus do céu, mãe quando nasce cabelo?
Era ria toda hora. Que bebê simpático, Elvira. Minha mãe é Elvira. Era mesmo. Eu acho que nunca deixei a Gabi cair. Quando pegava ela no colo, eu sentia meu coração endoidecido. Disparado dentro do peito. Eu vi que Deus tinha me criado aos poucos e aquele dali era um pedacinho que faltava. Eu tenho outro também. Pedacinho irmão. Pedacinho de céu-menino. Vaguinho, meu amor. Quando eu pegava Gabi no colo eu tinha quatro anos. Morria de medo de esmaga-la. Mas era melhor do que ela escorregar dos meus braços. Aí eu apertava. Devagar, Naninha. Minha mãe me chama Naninha, quando ela me vê pequena.
Devagar, não deixa cair. E ela mostrava aquele sorriso de velho pobre, sem dente, nem dentadura.

Eu acho que Gabriela se tornou dentista porque ela nasceu sem dente e carecia disso para um sorriso completo. Ou porque ela sabe como é ruim a gente querer sorrir e não poder. Aí ela virou engenheira de sorriso. Para rir é um pulo. É só olhar para ela que sua alma fica morna e naquele aconchego, você ri. E quando vê que ela vai existir para sempre -minha irmã é eterna - quando você vê que ela é infinita, você gargalha.

Mas não foi sempre bonita. Avisaram que minha família viria visita-la. Bisavó, tio tio tio tio tio tias. Amigos da firma. Amigos vizinhos. E ela continuava sem cabelo. Já fazia uma semana e sem a Gabriela falar nada. A voz dela não saía direito. Iria ser um fiasco.
Me adiantei. Pulei no berço e arrumei, deixei um pitel. Fiquei satisfeita.
Minha bisavó foi andando sozinha, vagarosa até o berço: Santa Maria, a menina está verde e toda machucada! Minha avó não enxergava bem. Todos correram. Eu também. Mãe: que isso?! Minha mãe também não enxergava bem. Gente, resumi: é maquilagem, ela estava meio feia antes.
Objetivamente, eu achava que estava melhor. Tinha ganhado meu kit de plástico. Usei o perfuminho quase todo na Gabi. A sombra verde escapou um pouco nas pálpebras e se estendeu até as bochechas e o batom - ela mexia demais a boca e tinha muita baba - o batom também ficou a mais, também até as bochechas. Tudo acaba nas bochechas da criança. Deve ser por isso que beliscam-nas tanto.
Minha mãe ficou brava, a Gabi só tinha 5 dias de nascida. Eu poderia ter matado, etc, etc. Mas eu sou louca de matar minha irmã? Cada ideia.

Bem, foi assim. Depois ela cresceu, ficou pequena, loira e pequena. Eu, grande, morena e grande. Hoje em dia pensam que somos gêmeas. De alma deve ser. Cada ideia.

Ela está ali do lado. Tirando um cochilo. Dormindo encolhida. Me emociona ve-la grande, com voz, cabelo, dente. Ela superou a fase ruim. A sensação que eu tenho é que, em grande parte, eu vivo e morro por ela. Essa é nossa parceria, foi isso que eu entendi dos olhos dela, apertando meu dedo, há muitos anos atrás.



17.5.12

Caramba


Decantei em mim mesma. Deicanto a mim. Uma perna estava mais curta, o braço encolheu. Resolvi estacionar aqui no papel. Em tempos de guerra, melhor tirar uma soneca. E assim me quedei, de perninhas cruzadas e mãos enfiadas na areia geladinha. Estando parado pouco importa se estamos meio mancos. Não é imporante que não possamos correr. Parados, temos todos o mesmo potencial: eu e o paralítico. E ninguém sabe de nada. E até eu fico a elocubrar se posso ou não andar bem. Viro-e-mexo-esqueço as respostas das dúvidas que criei.

Esposei-me. Casei-me com minha outra metade- me. Meio frustrante saber que sua outra metade é você mesmo. Um pressuposto para lá de banal e para cá de extraordinário. O outro é externo e metade não pode ser exógeno, para ser constituinte é preciso ser parte. Metade é parte. E parte de você mesmo, só você mesmo. Nos nós cabe o outro, em mim, só eu mesma.

Esse presságio da minha própria completude me caiu como uma bomba. Concluir-me indivíduo. A perna estranhou os passos, braços se dependuraram de outra forma. Como que dizendo: pelo o quê andamos procurando? Eu sempre estive aqui!

Aí parei um pouco para refletir-me. Ao que parece, sempre estivemos em plenitude, não nos falta nada à existência. Mãozinha na areia, perna cruzadinha. Caramba.

14.5.12

Ludovico canta com as mãos

A brisa se esfrega no meu hálito, como que beijando as palavras que ainda não nasceram em mim. Abro bem a minha boca, vem nascendo um discurso. E eu danço de estar parada. Sem querer mexer, sem querer pausar, com medo de quebrar esse silêncio en.cantado. Esse silêncio que nos pare, esses ruídos que nos perseguem como espiral ensurdecido.

A vida vai passando e deixando em nós vestígios de conversas mortas, de momentos-rios. Como que correntes que fluem em nosso interior e nos gargalham por entre as entranhas. E nos deliciam com frescor. Músicas feitas de pétalas.

E quando se pede teoria, as palavras faltam e só vem um nó na garganta. Um grito que rasga céus e infernos mas não diz nada aos outros, nosso monólogo de alma: nosso tiro, a última bala. No vão. Aquele pranto sem lágrimas, aquela voz que nem é mais nossa. Dizer, queremos voar, mas algo prende nossos passos, devora nossa língua.  Há algo. E, mas. Prende e arranca nossos ventos. E mata, revolve nossos sepulcros.  E mais. Há algo. Por certo, de errado.

Vem aqui e sussurra quietude nos meus ouvidos. Me dá palavras-rosas, tira os espinhos. Cura meus medos e me faz adormecer. No teu colo, com cabelos para o ar. Sentindo nuvens nos pensamentos. Sentindo carinho na existência. Vem e me acalma e vem. Vem. Come as distâncias, engole os caminhos, arruina os obstáculos. E te assenta no meu peito. Mora aqui dentro de mim, sem nunca partir. Ensina como é feito o eterno e qual o sabor da esperança. Como são flores nos olhos e de quantos suspiros é feita a felicidade. E não me deixes esquecer. Não esquece de mim, que tenho coração pulsador de teus delírios.

Ludovico

18.4.12

Cúmplice

Não se engane, todos estão a procura de cúmplices. Amor é questão de co-autoria:  são duas pessoas sendo a mesma arma: um engatilha, outro dispara: ambos se deslumbram. É a fusão de medos e o engolimento de distâncias. Cumplicidade está longe de ser um caminhar de mãos dadas às margens de um riacho. Não. É estar pendurado num abismo, mas ter quem te sustenha. Alguém que suporte seu peso. E que te segure, é ter alguém que te reconheça como sua própria alma. Imprescidibilidade. Um esgotamento, um campo aberto, um espaço livre para correr. Um recreio, um balançar de pernas.

É quando alguém se debruça na sua existência e verte sobre você riquezas e fracassos. E se desmantela todo, se desintegra diante dos seus olhos. E depois se remonta, explicando seus segredos, dando chaves, revelando encaixes, diante dos seus olhos incrédulos. Sem agonia. Uma nudez calma de ser para alguém. De ser mar navegável pelo outro. É transferir-se de corpo, é deixar seus pensamentos roçarem nos pensamentos alheios. Unir-se para um crime, planeja-lo em conjunto, conjecturar, temer, junto, perto, arfando, sentindo o hálito, chorar de medo, abraçar consolando, sem saber respostas, sem abandonar as esperanças. Duas pessoas a mesma arma. Duas pessoas uma pessoa só. Sem caber nada entre. Sem finais tristes.

19.2.12

Ah marzinho

Eu não esqueço a primeira vez que Letícia viu o mar. Tinha 12 anos. Caiu ajoelhada no chão e afundou as mãos na areia. Como quem perdeu o parâmetro da vida. Como quem não entende mais nada de coisa nenhuma. Abria e fechava a boca. “Aquilo é o mar?”, “É”, “Nossa!”. Nossa,

eu pus as mãos nos ombros dela. Peguei uma mão, depois a outra e depois peguei os olhos dela, por fim os ouvidos: “Vamos no mar”, “Não, do mar só quero um espio”. Mas eu, criatura imune, empurrei seus passos para as ondas. Empurrei boca, joelho, cabelo, língua. “A água tem sal!” e “O mar se mexe comigo sozinho”.

Que tipo de bicho humano era aquele? Um ser sem ah mar. Sem rio. Sem ter tido nada nunca liquefeito. Chorar não podia. Cuspir tampouco. E se sorria era com uns dentes sem saliva. E se suava, já era evaporando.

Porque quem não viu mar, não conhece oceano e quem nunca oceanografou-se não faz ideia do infinito que cabe em um lugar. E também quem nunca rio, nunca navegou. E nunca teve beiras e nem cascatas e nem carruagem.

Letícia era gente de terra (a)batida. Daquelas que a esperança vira pó ou vira lama. Letícia tinha olho amarelo, não comia miolo de pão e tinha chinelo maior que o pé. Que é para poupar. Que é para crescer e ainda ter lugar. Pessoa de futuro feito. De morte certa. De dor agendada.

E tudo isso por não ver o mar. E tudo isso sem navegar seu corpo. Sem onda nem frequência.

Foi então que eu revi o mar e era vermelho. E tinha olhos mutantes. E navegava com os pés na terra. E navegava mesmo com todas as âncoras do mundo. Não sei como, não sei, não imagino como se faz para cantar em silêncio. Mas aquele mar sabia. E cantarolava, sem titubear nem um tantinho, me enrolava em flores.

E quando eu vi esse mar gigante se desenrolando para dentro de mim, entendi Letícia. Lembrei dela e me compadeci de mim mesma. Fiquei triste da vida ser tão pequena e meu coração ser tão miúdo para caber tamanha felicidade. E agarrei a areia, fiquei desfazendo as pedrinhas com os dedos. Como Letícia. Sem acreditar naquele mar dentro dos meus olhos. Aquela azulidão. Aquele mundaréu de beleza encarnado.

Fiquei imaginando como se vive depois disso. Olhava para meus pés sem ver os dedos, para o meu rosto sem ver os olhos. O mar se mudou para dentro e sou toda correnteza. Sou toda nada mais. Nada mais me resta para lembrar, agora sinto nos lábios um gosto novo de vivitude.

Ah mar rio. Aguardente. Letícia viu o mar e eu carrego oceanos dentro de mim. Que bom. Que bem. Bombembom.