5.11.14

O(u)caso

Se você me perguntar como aconteceu, lhe digo que foi feitiço. De uma hora para outra recebi um peteleco no coração e ele voltou a bater. Destrambelhado, lambendo os beiços, cabelo amassado, coçando a bunda para tentar entender o mundo.

A surpresa do movimento foi tanta que. Que nem sei. Fiquei assim meio boiando, comendo flores pelo caminho. Sonhei com o mar ártico. Não lembro quando disse não, nem quando disse sim. Esqueci se cheguei a falar algo. Foi encantamento: perdi as estribeiras: gritei: fiz: aconteci. Cochilei e adormeci.

Aí você me pergunta: que houve?

Rapaz, bateu um vento e meu peito levantou voo(u).

22.10.14

Mostarda e mel

Na sala em que eu trabalho há uma foto de Buenos Aires. Uma panorâmica da Avenida 9 de Julio. Uns prédios enormes, um anúncio da Samsung e o Obelisco. De vez em quando me pego dentro da cidade, olhando para o céu estupidamente azul, observando aqueles carros da década de 90 passarem. Nostalgia, acho. Essa viagem me dá nostalgia porque não convivo mais com ninguém que tenha participado dela: nem eu sou a mesma. Sinto saudade daquelas pessoas. Sinto muito. Por outro lado, olho ao redor e vejo que, em maior ou menor medida, estamos todos bem. Então, tudo certo.

Acho que poucas coisas são mais deliciosas do que ser chamada de guapa, saí da boca deles se derramando. Que linda, que linda. Numa espécie de feitiço, os hermanos são todos seus. Eles são assim charmosos e possuem umas jaquetas e penteados impronunciáveis. Umas barbichas estranhas: absolutamente irresistíveis: a Argentina.

Eu sempre achei que me apaixonaria só uma vez. Mas, posso dizer, minha profecia ficou caduca. Me apaixonei uma vez e amei outra vez. Mentira. Não faço a mínima ideia de como classificar minhas vivências. Só sei que foi bonito, intenso e bom. Depois, foi o caos. Dor no peito, sensação de finitude completamente sufocante. Assim é a vida. Uma alternância imprevisível de bala Juquinha com chá de boldo. Uma hora está tudo muito docinho, outra hora uma amargura difícil de engolir.

Mas, a gente engole. E depois até repete. Só não sei se a gente se convence de que isso é normal. As coisas se esfarelam. Areia é farinha de montanha e fica lá na praia, pra sempre beijando o mar.(Espertinha) Estou farelo de mim mesma sem saber se luto para me recompor ou se mantenho a nova forma. Umas decisões bizarras e cogentes. Viver é um grande truc.

E se você perguntar: tá triste, garota? Digo: olha, tô triste não. Só tô olhando. – Sabe aquele estado de observação em que ainda não estamos bem certos do que sentir e de como interpretar os acontecimentos? Aí, a gente fica assim com a alma meio parada, come esfirra, vê um filme, até que, de uma hora para a outra, a gente desperta, com um pensamento já pronto e quase tudo resolvido.

Tô olhando e comendo esfirra, meu senhor. – Na fila de espera de mim mesma, aguardando o ardente desfecho. - E espera até quando? – Ex-pêra. Não sei, tô numa vida de repolho, na suavidade da alface americana.

Sabe? – O quê?


Sei lá.

3.10.14

Auto-ajuda nombre deux : tenha calma nas horas de pânico.

Acho isso uma palhaçada, primeiramente. Se o momento é de nervosismo, não peçam calma, sob pena de desconstituir o momento mais legítimo de todo ser humano: a agonia.

Mais uma vez, venho dar dicas inúteis, mas que, prometo, serão honestas e alcançáveis. Veja que estar com raiva e inconformado pode ser muito importante para resolver situações há muito negligenciadas. Portanto, eis que vos digo: vomita! Vomita tudinho que está te sufocando e se o mundo explodir depois, vida que segue. Viveremos em outra galáxia, então.

Tenho certeza que a maioria das coisas não ditas e as esperas dissimuladas são a grande causa da nossa degradação pessoal. Na seleção hercúlea do que podemos ou não dizer, calamos nossa própria existência e viramos um fantoche desconexo e ridículo.

1) Não seja ridículo.
Não seja ridículo.

Nesse sentido, minha sugestão é que a angústia, raiva e sensação de que está tudo uma bosta sejam encaradas como emoções legítimas de serem sentidas e, mais do que isso, legítimas de serem vividas. Por isso, se alguém vier te acalmar, seja ignorante e estúpido. Melhor não. Assim acabaremos sozinhos. Por isso, se alguém vier de acalmar, sorria. Melhor não. Se alguém vier te acalmar, fale: afaste-se ou sofrerá as consequências.

2) Afaste-se ou sofrerá as consequências.
Faça cara de fúria e de quem come miojo cru, com fungo, caído na lama do terreno do vizinho (selvagem).

Tem horas que as coisas dão errado, sim. E é comum que a gente odeie essas fases onde tudo de ruim vem junto. Se alguém perguntar como você está, diga a verdade. Como você está? Tô horrível.

3) Tô horrível.
Horrível mesmo.

E se alguém vier te perguntar qual é o seu plano. Diga: Não tenho planos. E se começarem a inventar saídas e soluções pra sua vida. Bem, a intenção pode até ser boa, mas é como alguém que tenta escovar os dentes de outra pessoa: cai baba e pasta por todos os lados, sem que a limpeza seja eficaz.

4) O que fazer? 
Você me pergunta.

Eu acho válido não comer, não tomar banho, desligar o celular. Sem claro que isso afete sua saúde e das pessoas à volta. Mas o que eu quero dizer é que o luto é vital. Admitir-se fraco, triste ou desanimado é saudável. É ruim? É! Muito ou pouco? Demais! Mas são nesses períodos mais críticos em que entramos em maior contato com a gente mesmo. Sentir dor é terrível, entretanto, aponta para nossa vida e sensibilidade.

Brigue. Grite. Chore.
Tombe.


Mais tempo, menos tempo, um sorriso se arreganhará na sua cara. E na minha, espero.

29.9.14

Auto-ajuda number one :10 passos para se livrar do stress

PASSO 1- Pare de acreditar em listas idiotas
Sinceramente eu respeito que você esteja nervoso. Te respeito e te considero: de coração pra coração. Mas, nada - NADA - justifica burrice. O stress é um monstro latente e persistente. E é impossível que existam 10 passos para faze-lo sumir. Sinto cortar seu barato, mas: 10 passos para emagrecer com saúde; 15 passos para encontrar seu príncipe e 27 dicas para mais feliz. Não não não. Olha, loser, não vai dar certo. Tópico nunca levou ninguém a nada. Se fosse assim, o sumário seria a coisa mais incrível do mundo. E não é. Sumário é índice e índice é bobo. Seja maduro, por favor.

Resolvi ser inovadora e escrever sobre o stress, não num dia em que meu céu esteja límpido, mas no dia em que morder a cabeça de alguém se mostrou uma opção viável em vários momentos do dia.

Portanto, hoje vou te ensinar sobre como ser mais calmo e nunca sucumbir à ira.
Utilizando um rol exemplificativo, vou te dar algumas dicas. Vamos lá, garotão.

i. Se sua mãe, num momento de tédio raivoso, resolve dizer que você não estende a roupa que veste e não sabe o trabalho que dá. Faça um protesto p a c í f  i c o: fique andando pelado pela casa e pergunte se ela quer que você lave a louça.

ii. Se alguém muito fedido sentar do seu lado. E você não tem para onde escapar. Use de honestidade e amor: peide. E faça daquele ambiente um lugar equilibrado, onde você tenha coisas à acrescentar.

iii. Se seu chefe ficar de mimimi, fale: f o d a - s e. Brincadeira. Faz isso não. Vai dar merda. Fica na sua e toma iogurte diet, que a raiva passa.

Gostaria que você estivesse percebendo onde quero chegar: eu não vou te ajudar. Não tem como. Você que arrumou o problema e vai ser você mesmo quem vai ter que resolver. Só acho que ser positivo todas as horas não é saudável. Admitir-se ogro é imprescindível para viver bem.

Não olha pra mim desse jeito. Tá irritadinha: uiuiui. Sabe o que pensei, existe sim dez passos para se livrar do stress: a violência. Caminhe, 10 passos, até a pessoa objeto-de-fúria e dê uma esganadinha. Acaba com o stress. Mas você vai acabar preso. Eu advogo, mas não faço criminal.

Assim termino o primeiro article de self-help: Luv u!




28.9.14

Coração vagabundo

Há momentos em nossas vidas que a agonia é tanta que mais parece que vamos morrer sufocados, enforcados em nossas próprias tripas. A gente fica meio sem graça, meio parado sem entender se o golpe nos matou ou se matou tudo à volta. Uma coisa é certa: a desolação.

O pior, meu caro, é quando não há culpados e ninguém pode ser chamado de canalha. Eu tive uma longa cicatriz, remendei meu coração com uns trapos quaisquer, tentando ligar os pedaços esgarçados. Houve quem dissesse que isso não era direito, um coração andar tão roto. Tirei os panos podres e tive coragem de olhar longamente para as minhas feridas. Eram horrorosas e intransponíveis naquele momento. Mas, com esmero e paciência, elas se tornaram mais toleráveis. Houve quem dissesse que ele iria sarar ao todo. No fundo e no raso. E eu acreditei.

Acreditei plenamente que iria ser feliz e, de coração novo, fui me roçando na esperança. Mesmo com medo, ousei vislumbrar um destino mais bondoso. Onde houvesse menos rasgos. Era docinho esse futuro e eu quis te-lo.

Só que foi tudo algodão doce. Coloquei na boca e desapareceu. Só ficou o gosto. Fiquei confusa ao ver tanta cor se desmanchar. Feito uma boca que desmantela depois de dizer "eu te amo". Meu peito começou a arder, com aquela sensação tão conhecida. Acabou e é melhor ficarmos acabados.

Ah, coração vagabundo. Não tenho mais garantias. Não sei mais se ficaremos bem. Tragam os trapos.
Mais uma vez ao pó.

18.8.14

De hoje emdia.nte

Ontem antes de dormir, minha garganta já estava se fechando e meu coração já se afundava no peito. Uma angústia, tão interminável que eu me encolhi na cama. E fiquei assim por algum tempo: ouvindo o barulho da casa: a televisão moribunda, o chuveiro jorrando. Tudo embrulhado numa rotina preguiçosa e quieta.

Até que ouvi alguns passos. Ele entrou no meu quarto e se deitou do meu lado. Abriu os braços e eu me embrulhei nele. A sensação de sentar embaixo de uma árvore em um dia estonteantemente quente e azul. Minha mão sobre uma barriga que respirava, com umbigo e tudo. Calma. Barriga calma. Acho que amar e ser feliz é poder grudar as orelhas nas costelas de alguém e poder adormecer com a cabeça amparada por carinhos sonolentos.

A gente ama bem, na hora do cansaço extremo: quando a gente sente muito medo e se torna insuportável. A gente ama mesmo quando sabe que a vida é um furacão que arremessa nossos tesouros para muito longe.

Mais. Vamos intuindo onde os pedaços foram pousar e iniciamos uma busca. Vamos ao reencontro. Desenterramos, limpamos. Aprumamos. E dizemos: você é meu. Amor.

Seja a saúde, seja a doença. A euforia ou um novo emprego. São tantos os fatores geradores de caos. São golpes inesperados que nos deixam sem ar e sem lágrimas. Ficamos atônitos. Mas, no meio disso, nessa perda desenfreada, alguém nos abraça. Um olhar nos resgata e a gente consegue ter esperança.


E eu acho que isso merece ser celebrado. Somos um conglomerado de pessoas imperfeitas que se ama. De barrigas calmas. E mentes agitadas. Com umbigo e tudo, desafundadores de corações, aparadores de cabeças cansadas. E isso basta. Aliás, sobeja.

11.8.14

Excelsa

O dia demorou a começar. Ao que parece eu estava transitando em qualquer lugar que não me dizia respeito algum. Há algumas fases em nossa vida, em que estamos no entre-sonhos. Eu vejo a dificuldade e o medo de sairmos desse platô. Tivemos um vislumbre, mas aos poucos, nos perguntamos se o que vimos foi miragem ou se é nosso destino.

Para mim, destino é lugar a ser conquistado.  Aliás, eu percebo que a vida é um grande formulário em que nós criamos todos os campos. Percebo também, que há momentos em que não faz diferença se andamos na escuridão ou na luz: tudo mudou e não conseguimos reconhecer o caminho.

Uma sensação incômoda de pré-mudança. Tudo parece o mesmo, mas não é. E não sabemos explicar o que mudou. Só sabemos que não é. E mesmo sem termos nos deslocado, no mesmo cenário, a continuidade de alguma coisa parece ter sido interrompida.

Será que somos nós quem mudamos? E o olhar lançado não é capaz de capturar o que fomos. Será que houve um movimento mais rápido do que fomos capazes de assimilar? E vivemos momentaneamente em um espectro, uma mistura entre passado e realidade não digerida. Será que é inteligível essa crise, de maneira que essa confusão possa ser debatida, trabalhada e revertida?

E, daí, o ponto principal. Será que o novo já não se esfrega na nossa cara de forma tão descarada que já seja a hora de admiti-lo?

Não.
Não sei.

Meu conhecimento se mostrou insuficiente para interpretar os panoramas. E diante dessa falha, de meus parâmetros agonizantes, fico assustada e me sinto incapaz. Não que haja infelicidade ou motivos para um tango argentino. Nenhum desastre. Tudo vai bem. Só não sei para onde. Só não consigo imaginar o que vem depois da esquina. É a falta de projeção o que mais nos paralisa. A sensação latente de que não sabemos mais como construir um ponto de equilíbrio. E mesmo que ele nos seja dado, entregue pela graça divina, ficamos cônscios de que não sabemos como reconstituí-lo.

Meu caro, é a falta de onisciência, onipotência e onipresença que me aflige. Descobrir-me humana foi um dos maiores sustos que vivi recentemente. Porque eu bem que tinha me esquecido , como que por um lapso, dos elementos-surpresa. E levei uns tapas na cara, tantos bons quanto ruins: só para me lembrar que eu não sei de quase nada e vou ficar sem saber. E, sobretudo isso, tive que reassimilar a ideia de que a falta de controle, não deve me gerar insegurança.

Eu demorei a descobrir que as nuvens ficavam suspensas no céu. Eu pensava que no teto tinha algo para suspende-las. Quando me foi dito que nuvens, planetas, luas e tudo mais gravitavam, isso não me gerou fascínio, mas terror. Constantemente orava e pedia a Deus que não se esquecesse de segurar a Terra, para que não caíssemos de tão alto e as nuvens não nos esmagassem. Hoje vejo que meu medo sempre foi o desmoronamento.


Mas, para quem acredita em paraíso, o final das contas não é assim tão meia boca. Eu posso dizer que fui sobrevivente de alguns deslizamentos e vi escoar muitas certezas, mas nunca nada destruiu tudo. Então. Sabe como é. Vamos ouvir Zeca pagodinho, fazer tatoo de borboleta e confiar que tudo vai dar certo. Ai ai, Deus, como é difícil não ser Excelsa.