27.4.16

Antes de dormir

Tenho minhas unhas rosas, mal pintadas, mal limpas. Tenho um coração encardido de tantos amores malpassados. Tenho um peito aberto de vazio, cheio de enxertos e carcaças. Vivi entubada em mim mesma, encolhida nos meus pés, longeando da cabeça. Não quero pensar. Não quero sentir. Quero caminhar. Andar não desdiz ninguém. Ir não destrona: afasta e lambe-se o silêncio dos passos.

Vivo a construir pequenos relatórios mentirosos, do que fiz e do que sigo sendo. Eu estou, sem gerúndios, num presente bem marcado. Estou pétalas voando para o chão. Estou neve pouca que se dissipa pelo ar. O que congela, mas não tomba. O que se esfrega no meio e se alonga. Sem pressa, sem alvo. Sem lugar.

Vivo como ser etéreo inventado em outra linguagem, engolido por nada. Transito impune pelas ruas deles. Como a comida, vejo seus olhos, sorvo seus cabelos. Me esgueiro entre as frestas e aspiro como amam, o que sentem, o que soam. Faço igual, faço diferente. Engulo tudo, mastigo e cuspo.

Como morder borracha, como chupar capim, como lamber o mel, como beijar a água. Como me derreter em momentâneas sensações de solidão desamparada, para me derramar na delícia de estar só.

Sou calma e lago. Um sábio de bochechas caídas. Sou bruxa fazendo poções para seus gatos. Sou o contentamento do instável. Sou a beleza da brisa no mar. Sou o último pensamento antes de dormir. Sou à Deus.

25.2.16

Uma paixão, um amor, um engano

Olhei do alto da praça e gostei do que vi. Um cabelo meio enrolado e um jeito pausado e forte. Dentes absolutamente brancos. Tocava uma música qualquer dos Titãs. Ele olhou para mim, eu sorri.

Era de tarde e minha amiga estava ficando com rapaz vestido de pescador. Eu ia seguindo o bloco de longe, quando vi uma peruca brilhante, ele andava pela calçada e eu vinha atrás. Observando. Passei por ele e fiz uma piada qualquer, a resposta me divertiu enormemente.

Aos poucos, foi subindo a escada. A cada progresso, olhava para ver minha reação. Eu sorria. Naquela época só sabia sorrir. Ele sumiu do meu campo de visão para aparecer, alguns minutos depois, do meu lado. Olhei de perto. Perdi o fôlego.

Fui conversando, para ver até onde iria a sua criatividade. Sem limites. Decidi que aquilo era ótimo e o beijei. Ele tinha um tênis com umas partes verdes, daqueles de corrida e só falava com a voz do personagem que havia inventado. Perguntei qual era o nome dele. Disse que não tinha nome.

Ele não conseguia falar nada. Enfiando e tirando as mãos de dentro do bolso, como se ali dentro pudesse encontrar qualquer punhado de palavras que o ajudasse. Sentamos em um banquinho. Ele já tinha me visto antes na cidade. Nos beijamos.

Ele também não tinha profissão, porque essas coisas não pertencem à magia do carnaval. Até o beijo dele era faceiro. No meio daquele barulho todo, sua gentileza vinha como um passarinho pulando no quintal. Sem que ninguém espere, beliscando um pedacinho de qualquer coisa.

O cantor do bar passou por nós, ressentido. Sozinho, carregando o violão. Ele me beijava como uma onda, como que em semicírculos. Num símbolo do infinito. Uma nuvem passou bem baixa. Olhamos fascinados. Ele me disse: “estou apaixonado por você”. Meu corpo flutuava.

Fomos andando na direção da música, me deu a mão e, por uma razão que me escapa, me senti segura. Comprei uma pipoca e ele estava faminto. Foi comendo naquele contentamento que só os bêbados alcançam. Um amigo dele apareceu. Um amigo dele foi embora. Fiz xixi atrás da banca, enquanto ele vigiava os intrusos. Fui embora sem saber como chama-lo.

A memória fica como o carinho de bigode de gato. Umas cócegas, leves e sem dimensão exata. Apaixonar-se. Amar e desarmar-se. Não há engano. Há esperança.

15.2.16

Carnaval

Tem horas que a vida dá um intervalo e surge um imenso silêncio, cessa toda a percussão e fica o bumbo, ecoando, gravíssimo. Como se os movimentos oscilassem: devagar eu, rápido o mundo; eu voraz, o mundo cochilando. Um bum bo.

Vamos nos calcificando e criando ossos até nas nossas partes mais moles, uma tentativa de gerar estrutura, eu acho, para enfrentarmos os obstáculos menos liquefeitos e esparramados. A doçura e a inocência se fundem num sentimento quase triste: nostalgia.

Aprendi que as experiências nos percorrem e vão deixando seu espólio em nós. Como se fôssemos um rio, onde a água que nos atravessa fosse aquilo que vivemos. Às vezes, arrancam nossas barragens, outras, enriquecem nosso solo. Deixam lixo ou mudam nosso curso: podemos virar lagoa ou desembocar no mar. A vida é um constante movimento de inundação.

Uma importante conquista foi perceber que tenho domínio sobre o meu leito, quase nada é irresistível. Algumas mudanças são difíceis de remanejar, mas com persistência, sempre é possível se aproximar do que éramos antes, na nossa antiga geografia.

A questão é: queremos ser os mesmos? Queremos negar sistematicamente todas as alterações que nos alcançaram?

É desconfortável mudar de forma, mas nem todo desconforto é ruim. Exige, entretanto, mais diligência, teremos que reconhecer nossas novas fronteiras e reinterpretar nossos caminhos. Sonhos desaparecem, outros brotam. A projeção sobre o futuro não alcançado não é um aborto. Algo que morreu. O que não aconteceu precisa deixar de existir para dar espaço àquilo que vai surgir.


Vez por outra temos que esganar uns fantasmas, no escuro mesmo, quando eles vêm nos assolar. Uma parte do novo é chamada medo. Como uma pedra de argila, com mãos insistentes e com água disponível. Desconstruindo as armadilhas e dando novas serventias ao nosso material emocional. Precisamos cuidar de nós mesmos, tatear nossos pensamentos, cuidar das feridas. Semear brotinhos de alegria. Regar e regar. Regar. É preciso se esticar até o último pedacinho do dedo para alcançar a esperança. E pega-la.

16.1.16

Sempre e só

Algumas noites acordo, assustada em uma casa estranha. Fico com um pavor: estou na França. O pensamento fica girando na minha mente sonâmbula. Meu coração afunda dentro de mim: estou sozinha.

A saudade não se descola. Alguns dias é como um vento gelado, cortante e incômodo, vai entrando por entre as brechas e me tira todo o aconchego. Há outros, porém, que a saudade vem como um beijo quente e macio, afagando os meus cabelos e me fazendo dormir em paz.

De qualquer maneira, o infinitivo do amar é sofrer.

Sofro de bom grado, porque o que me dói é o sobejar. É a consciência exata de que amo muito e sou muito amada. Sofro porque carrego um tesouro maior que eu mesma. É um mar com pedras cortantes no fundo. Nado para fluir, sobretudo, para sobreviver.

A solidão, aos poucos, constrói morada mim. Adornada de hábitos curiosos. Prazeres miudinhos e graciosos. Olhar o morango de perto, estudar o cadarço do sapato, sorrir para o dia. Os objetos ficam dotados de personalidade. A almofada é minha “fofinha”; a luva mais quente, “a poderosa”; as cobertas são “a galera”. Mas sinto falta mesmo é da minha irmã entrando no quarto com o botão da calça aberto, comendo banana, com um pão mão. De fazer cinco tapiocas. De sentar no sofá e ter o colo do meu pai, do meu irmão sentando em cima da gente e tirando do meu canal, da minha mãe narrando todas atividades do seu dia.

Sinto falta do carnaval que não terei. Das pessoas que mergulharam nesse oceano que nos distancia e me transformaram em passado. Perdi muita coisa nessa travessia. Sei que nem tudo vou ganhar de volta. A vida, às vezes, nos amputa mesmo. A gente cresce para outros lados.

A sensação é como se alguém colocasse a mão na nossa cara: e não podemos ver direito, nem respirar direito, nem falar direito. Fica tudo confuso e atrapalhado. Um ataque improvável. De tanto me debater, consegui libertar o meu rosto para voltar a viver face-a-face.

A alegria aqui repousa nessas vitórias: ver melhor, respirar tranquila e falar corretamente.

Refaço os caminhos para sabe-los bem no dia em que vierem me visitar, faço roteiros intermináveis para que eles nunca precisem ir embora. Meus olhos se abrem e estou no metrô, na rua deserta, no Sena, no café, no bar, de frente pra salada. Vivo entre três mundos: onde os meus queridos ficaram, no que eu estou e no que eu criei.

A alegria aqui repousa nessas vitórias: sorver, sonhar e lutar. Nunca sozinha. Sempre e só.



4.9.15

Da realidade dos fatos

            Certa vez, uma amigo do meu irmão apareceu aqui em casa, tarde da noite para ir no Via Show, a namorada dele, que morava na Serra ou na Região dos Lagos ou longe tipo São Gonçalo, estava na casa dele. Tinha vindo passar o fim de semana com seu amado. Diante da alegação de que iria jogar video game o jovem, ganhou o mundo, com perfume e gel emprestados. O que me inquietava era que ele havia me dito que desta vez estava realmente apaixonado (fato inédito). Resolvi inquiri-lo: “. Mas, garoto, você não disse que gostava dessa menina?!”. Ao que ele pensou, pensou e me respondeu: “E eu gosto! Só que gosto mais de mim!”. Gargalhei.

            Achei esse argumento de uma honestidade ímpar, tanto para ele mesmo quanto para o interlocutor, no caso eu. Não tanto para a donzela, mas, vá lá, nem toda estória tem final feliz para todos. Aliás, quase nunca tem. A questão é que normalmente escondemos nossos interesses reais e colocamos a culpa no outro pelas nossas escolhas. Nesse caso, a fulana era ótima, gostava sim, mas não queria abrir mão das demandas do ego dele. De qualquer maneira, a resposta foi genial, uma baita auto-sacação.   

            Não tenho a mínima pretensão de explanar uma conduta moral a ser seguida, não sendo comigo, cada qual é livre pra trair quem bem entender. O ponto neuvral seria muito mais a capacidade de auto-compreensão dos indivíduos moderninhos - que está bem afasada. Para além de sermos miméticos, temos que 1) imitar, 2) explanar e 3) colher as curtições. Isso dá um trabalho enorme e arquitetar uma felicidade (nem que seja falsa) nunca foi tão difícil, afinal, temos fiscais. Fiscais do peso, da carreira, do amor, fiscais de mêmes. E quem me dera fosse só o Tio Sam vigiando, pelo menos era da família. Um tera de pessoas inspecionando umas às outras, sem que tenham, ao menos, uma relação próxima. Eu também fofoco virtualmente, não sou santa, nem boba - minha valia é que não sou tão curiosa, então levo bem minha ignorância.

            Lembrei também de uma explicadora que eu tive, que era alto nível. Ela era esperta, versátil e fez uma mini-escolinha no quintal de casa. Alunos de várias séries. Meu sonho era passar no colégio militar, mas não tinha dinheiro para pagar o Curso Martins, então, fiquei aqui no bairro mesmo, por sessenta reais. Passei para FAETEC e fiz diversas coisas em visual basic. Tenho o meu glamour, dá licença.

            Ela trabalhava sem parar. Na minha formatura de oitava série ela foi e eu fiquei estourando de orgulho. Ganhei uma medalha de melhores notas, achei tudo o máximo. Sobretudo vê-la de cabelo penteado, com roupa de sair. Isso tomou uma dimensão tão grande dentro de mim que não lembro se meus pais foram. Ela era minha mestre, que sabia todas as matérias e me explicava tudo o que não conseguia entender. E há até poucos meses eu tinha todo o material que ela havia confeccionado para mim naquele ano. Guardei alguns favoritos e o resto deixei ir.

 Ao contrário do rapaz do começo do texto, a Tamar colocava todo mundo a sua frente. Os pais, os sobrinhos, irmãos. Ela cuidava de tudo, até da limpeza do coco dos cachorros. Morreu uns dois anos depois da minha oitava série, um negócio assim. Teve um infarto e pronto. Fechem os livros, esvaziem as cadeiras. A filhinha dela era mais nova, devia ter uns 10 anos. Não deve ter passado no colégio militar também, ficou órfã (o pai era distante ou não existia).

            Toda vez que passo em alguma prova, uma coisa bem difícil, eu lembro dela, nunca ninguém confiou tanto na minha inteligência. Eu chegava com um problema de matemática sem solução, muito angustiada, ela olhava e me dava uma bronca: “Não quero ouvir eu não sei. Você não fez porque você não quer. Quando quer, resolve.” E eu resolvia. Ela me ensinou a ser persistente, como não conseguia confiar em mim mesma, confiava na palavra dela.

Nos últimos dias, fiquei imaginando batendo na porta dela e contando que passei no vestibular, que passei na prova pra tirar habilitação (que sufoco!), passei na prova do mestrado, na prova do emprego que eu queria. Queria contar que já corri 10km, que já subi montanha. Iria ser bacana ouvir aquela risada, como se eu estivesse fazendo uma estripulia: “você é fogo na roupa!”.

18.8.15

Museu, Musoele

Há algum tempo sinto vontade de escrever qualquer coisa que não está cabendo no vernáculo. Fico agoniada com essa sensação na língua que não consegue virar um sabor, um nome. As palavras sempre me acalentaram e me ajudaram a suportar tanto a tristeza como a alegria.

Mas há dois dias ganhei flores e agora, toda vez que durmo, sonho com elas. Até no cochilo do trem, sonhei. Achei tão bonitas, ganhei dois ramos: ambos roubados do meio da rua numa madrugada. Uma era um Flamboyant, a outra uma orquídea branca. Uma na ida, outra na volta. O que mais me impressionou foi o fato de alguém reconhecer beleza e lhe endereçar, rotineiramente. É comum que eu ande por aí e colha algumas, seguro até se desmancharem nas minhas mãos. Vivo com os bolsos cheios de flores. Aliás, vivia. Por algum motivo, parei de pega-las e passei a apenas contemplar.  Agora me dou contas. Vejo, que, em alguma medida, isso foi um procedimento amplamente adotado por mim. Parei de tocar, usar, consumir. Passei a desejar, me controlar e observar.

De repente, ele passa, arranca e me dá. Nesse momento, percebi duas coisas: eu quero isso e mais, quero receber. Desejo me doar, sem ter nada em troca. E desejo receber, sem nada em troca. Também. Exatamente como aquelas flores, que não podem ser replantadas, possuem sua plenitude no que aparentemente seria uma limitação.

Acredito que o amor, vivenciado em nossas mais diversas relações, vez por outra toma um sopapos e só o tempo pode demonstrar a sua força e resistência. Numa terra aparentemente vazia, nasce uma folhinha: uma semente que brote, basta. A vida pulsa numa voracidade que é difícil reter suas ondas, a gente cai no meio de um redemoinho e entra felicidade pelo nariz, o pé bate na nuca, a boca não dá conta de falar, nem os olhos de ver.

Era como se eu estivesse brincando de estátua, entre os meus queridos. Podia rir, falar entre os dentes, mas não podia me desdobrar e alcançar quem me investigava. O encarregado fazia de tudo para que eu me desmanchasse, mas eu me mantinha imóvel para ganhar. Às vezes, perder é a chave do sucesso, desmontar é o ápice da construção.

O amor se desenvolve como uma nuvem, embalada pelo vento, dormindo e acordando no céu. Eu estiquei minha mão, ele beijou. Tão bom. Quem me dera poder explicar.

13.6.15

Esconde-esconde


A vida é um troço esquisito. É uma espécie de elástico que a gente puxa, puxa, um estilingue que a gente estica com medo de soltar da mão e bater bem no meio da nossa cara. Geralmente sou de desejos bem delimitados: olho bem meu alvo e persisto nos arremessos. Até acertar e alcançar minha satisfação. Mas, nos últimos tempos, estava esticando o elástico só mesmo para não perder a prática. Ia para o meio do meu nada e atirava, pensamentos voando, tiritando: o que querer, pra quê querer. Uma fase boa, embora dolorida, comecei a mirar o intangível, acertar o sol, atingir o horizonte.

E nesse ritmo, de movimentos aparentemente inúteis, aprendi que existe graça no simples ato de tentar. Encontrei um rapazinho com uma barba gigantesca e uns olhinhos brilhantes que não se importava com meu despropósito, nem com minhas dúvidas. Pouco a pouco, aquelas elucubrações solitárias começaram a ser partilhadas. Ele me lembrou que isso que eu vivia se chamava sonhar. E que sonhar era bom. Sem eu perceber, ele foi colocando umas pedrinhas no meu estilingue.

Ontem, para meu completo pavor, ele puxou e puxou e riu e puxou. E me deu. Quando soltei, leviana e para o alto, recebi uma chuva de flores. O arranjo mais bonito estava lá. Com tudo o que era mais precioso. Fiquei tonta de alegria. Minhas angústias se perderam de mim. Boas memórias e gargalhadas. Parecia infinito. Eu já não sabia que bem me arremeteria, que carinho me ampararia primeiro. Fiquei toda feita de nuvem. Paralisada ante minha incapacidade de transmitir a força das minhas emoções.

De noite, pensando com Deus, concluí que ninguém nunca entenderia. Só Ele mesmo para sentir no meu coração: achei uma conchinha e dela consigo ouvir o mar. Mar me quer, velejo: proamar.