23.12.13

Atropelamento

Fecho os olhos e sou capaz de beija-lo novamente. Morno, braços exitantes. A gente se ama, mas ainda não sabe o que fazer com esse amor. Mas. O tempo passa, e a gente continua sem saber. O tempo passa e a gente continua. passatempo. Amando cada um no seu canto, negando ausência, expurgando as emoções.

Não sei se há amor suficiente, não sei se o amor sobrepujou. Não sei mais se amar r.existe.

É inegável que o seu sorriso ainda me faz calor. E que nossas memórias ainda me são felizes. Mas a gente não resiste a nós mesmos. nós emaranhados na nossa garganta, sufocando a esperança de sermos unidos. mesmo. rimos, suspiramos, prometemos tudo o que tínhamos, mas a profecia falhou e a redenção tarda em vir. correlacionamos as lacunas, substituindo vazios por outros.

A gente tentou, nossa humanidade nunca mais será a mesma. Se fomos vencidos, não foi por falta de lutar.

16.12.13

Esperiência


Tomei cachaça. Tomei cachaça com cerveja. Olhei o limão e lembrei de 4 ex-namorados. Peguei um copo de vidro. Coloquei gelo. Espremi limão. Matei-os esmagados. Enfiei-nariz-bocalábio no copo: estiquei a língua. Feitiçaria. Eu toda bruxa alácasei uma vodka. Achei hortelã. Achei de bom tom. Achei água potável, bom tom. Achei 51, que venha. Cachaça caseira: requinte. Gelo muito gelo. Mirei minha própria boca, olhei pro teto e sorvi lentamente minha obra-prima. Depois, como quem guarda em si todos os mistérios da Terra, sentei numa cadeira qualquer e fiz pose de bochechas de anão velho: caídas, sonolentas, macias e rosadas.

Conversinhas sobre economia. A mãe de alguém era chique, o pai de alguém estava vindo. Fulano de tal era corno, a mulher da esquina operou as varizes. Blá blá blá blá, casaco barato, buraco na estrada, um filho sem olho. Sem olho?

Achei aquilo um desrespeito, resolvi ir pra casa.
- Eu te levo!
- Eu te busco!
- Eu te pego!
Homens malditos.

Mas. Eu carregava toda a meiguice do mundo, aquele ranço que só um porre promove, aquela língua que gruda nos cantos da boca, lá no céu, de repente, se enrola (profere) e se cansa. O corno perdeu o olho, coitado. Cheguei em casa relativamente sozinha. E lembrei do Agenor, ele tinha um queixo quadrado e a unha do indicador parecia que iria chegar nas costas do dedo. Ele me explicou que foi um acidente com um cachorro, que tirou o tampão fora e aí a unha ficou assim: envoltada. Seja como for, Agenor e eu tivemos um lance legal e um papo gostoso. Ele trabalhava numa mineradora e se gabava de já ter visto muito cobre na vida. Ele gostava de música de cowboy e tinha um sorriso daquele que faz perdoar pecados. E cada vez que ele ria, eu orava: amém.

O Agenor tinha assim uns olhos pequenos, daqueles que somem na cara, castanhos, alegrinhos. A voz dele era rouca. Ele era todo feliz, mas não me beijava nunca porque dizia que se beijasse ele iria se apaixonar e se se apaixonasse, não iria aguentar. Como eu queria que ele aguentasse, eu fazia que sim, coração palpitando destrambelhado. Aí ele sorria: perdoados estão vossos pecados. Um tempo depois ele me disse até que me amava, mas estava acostumado a amar outra mulher. Por questão de hábito, não ficamos mesmo juntos.

Encostando nessas memórias, fui olhar pela janela. Romântica, lenta e perigosa, avistei a casa do vizinho. Eu morava no alto. E ele era um velho tarado que ficava lambendo os próprios beiços. Um enjoo e uma ideia espetacular: vou vomitar no telhado dele. Abri bem a janela e invoquei os meus drinks. Mas só dei uma golfadinha. Quase que só escorreu pela parede. Que frustração. E veio de novo. Aquela onda. Ah, coisa linda vomitar sorrindo. Afastei umas mechas de cabelo, que voavam com o frescor da noite. Estava preparando mais uma investida quando minha mãe me pegou, já de pijamas, vomitando no telhado do Seu Otávio. Doida! Pegou um balde. Vomita aqui! Não quero. Anda, vai. Não. E me neguei. Mas ela enganou os meus sentidos e colocou o balde na direção do meu alvo. A partir daí só golfei. Nunca mais fui a mesma. Depois ainda escovei os dentes, higienizada e mansa.


O Seu Otávio acordou todo mundo no outro dia dizendo que o gato dele estava morrendo. Que tinha vomitado tudo, que até agora pingava e que tinha folhinhas e muitas tranqueiras. O bicho comeu planta venenosa ou cachorro-quente estragado. Está pelas últimas. O gato ficou lá, gordo, recebendo afagos fúnebres. Eu não tive dor de cabeça nem remorsos. Minha irmã disse que eu não tenho auto-estima, mas a partir de agora resolvo tudo chamando o Raul. Você que não me pague o que me deve.

20.11.13

n doble

Fiquei sem imaginar o que sentir. Quando uma pessoa morre, acontece uma mutilação na gente. O mundo gira em mil imagens e a gente se aconchega em algumas delas: memórias boas, risadas abertas, estórias loucas. Para preencher o vazio. Aí os sobreviventes se aproximam, rosto inchado do choro, alma doída. E a gente abraça, chora e perde muita esperança. Quando uma pessoa morre a gente perde muita esperança. Nos filhos que não nasceram, na velhice não gozada. O passado se torna morada dos nossos queridos e prosseguimos trôpegos. Vacilamos na nossa própria existência.

Eu amo muita gente. Secretamente costuro meu coração à felicidade das pessoas que moram dentro dos meus olhos. Não haverá mais voz. Nemcanto.
Por agora:
A gente se abraça, nus chora e perde-se na pouca esperança.

Ah, Deus sorva-nos com seu paraíso e amor. Esse mundo aqui anda sem cura.

27.10.13

Assunção

 Num mundo em que juras de amor são proibidas, faço juras de todos os meus desejos. Em que o eterno foi banido, comprometo todos os meus instantes.

Talvez seja o tempo de assumir possibilidades e deixar de se encasquetar com a certeza. Num movimento fluido  de se abandonar. E recriar-se no próximo passo. Como se o passado tombasse e o presente descansasse e pudéssemos andar livremente. Sem o peso insustentável das feridas. Sem o vislumbre cíclico das chagas. Apenas um passo. Uma nuvem e o horizonte. Nem voo, nem corrida. Nem arrastar-se. Como quem finca a travessia, sem saber por onde vai passar.


Vamos indo, todos nós: fantasmas: vivos ou mortos. Lamber a vida.

9.10.13

Morricenta

Foi na véspera de Natal que descobri que minha infância tinha morrido. Por um desastre qualquer, houve uma cisão e, me explicaram, eu deveria ser boa. Eu já não era boa o bastante. Não. Mais.

Uma fila de visitas, abraços. Desolações. E batiam levemente na minha cabeça, sem olhar nos meus olhos. Mãos firmes no meu queixo e levantavam-me o rosto: seja uma boa menina, ajude seu pai e seus irmãos.

-Mãe?

Melhora logo.

Temos que ser bons o bastante. E fomos. Suportamos as dores mais trucidantes. Uma sensação de estrangulamento constante, que nunca mata, por mais que se peça.

Fui boa. Não chore! Não choro. Dar leveza aos destroços que se amontoavam. Salvar sua alma da desesperança.

Inaugurei uma nova existência sem reclamar de tragédias, banidora de tristeza: e caminhava. Dia após dia. Arrastando tudo com uma força sobrehumana. Havia um abrigo e era para lá que nos levava. Morri de fome, morri de sede. Morri de tanto gritar. Morri por quatro golpes fatais. Morri por palavras mal proferidas. E achei abrigos dos mais diversos. Achei paraísos, destruí oito infernos.

Tire a mão do meu queixo e não me peça para ser boa. Nunca mais.

E de tanto prosseguir: tornei-me forte, indestrutível e grave.

Ser boa é maturar-se e só cabe a mim. Só cabe a mim existir.

8.9.13

Souer

Veja bem. Os mundos se fundiram e eu sonho um passado com novos personagens. Como se uma caçada descontrolada se desenrolasse atrás de mim. E cada passo fosse uma fuga, ínfima, infinita. Onde tudo me persegue, mas nada me alcança.

Eu sigo correndo, atropelando o vazio, percorrendo paisagens. Um medo me estrangula a garganta. Uma tonteira: um veneno qualquer que invade meus olhos. E minha boca se abre, meu corpo arfa, minha saliva pendente. Caio de joelhos, em uma terra de lama. O mundo gira, para, e as emoções desfilam vagarosamente, mostrando dentes e perfume. Intangíveis. Irrenunciáveis.

Minha boca está dormente e você diz que é cocaína. Pede desculpas. Eu fico confusa. Vamos para outro lugar. Vamos. Minha boca lateja. O que é cocaína? O mundo  fica piscando enquanto eu me equilibro nos meus passos. Muita gente em um espaço tão curto. Você some. Eu não me importo. Quer maconha? Não. Vamos para outro lugar? Vamos. Onde? Não sei. Minha boca está estranha. Logo passa. Não entendo o que você fala, você inventa sons que não estão na minha linguagem. Mas minhas mãos estão na sua nuca. Ambas apoiadas em sua altura.

Pegue suas coisas. Não sei da minha bolsa. Onde está sua identidade? Perdi, você tem dinheiro? Tenho. Mas vou pegar mais. Onde? No banco. Está tarde. No caminho. Táxi. Queremos um quarto. Cruzamos uma ponte, as luzes são amareladas, o caminho parece percorrer a mim mesma. Aqui está senhorita. Desço do carro, mas não há vagas. Queremos um quarto. Mas não há. Há um congresso de metalúrgicos na cidade. E todos dormem, entediados, ocupando nossas vagas. Queremos um quarto. Aqui há, mas é caro. Caro quanto? Ele paga. Ele paga tudo, dá moedas para o táxi. Eu abro sua carteira. Preencho fichas, invento nomes. Não tenho documentos. Sem problemas. Aqui a chave. Queremos um quarto.

E seus lábios se apertam. Um quarto bege com colcha marrom. Um abajur fracassado, toalhas limpas nos meus braços. Sua pressa acabou e você passa a matutar. A investigar meu pescoço, a desfilar sua força. Acordo nua e você com uma cueca furada, um rasgo junto ao elástico. Precisamos ir. Você com os olhos cerrados, pele queimada do sol, pulseiras das mais diversas. Seu cabelo reluz. Acorda. Não. Acorda. Hm. Senta-se na cama. Abre um mapa. E me aponta uma lavanderia. Confere o dinheiro. Não roubei nada. Mas pensei em abandona-lo. Mas nunca aprendi isso.

Depois de um tempo lembra de mim, pega minha mão e beija. O taxista sorri. Estamos voltando. Mas você não me ama. Não vou com você até o fim. Despeço-me com um beijo seco, estéril. Alívio. Dá sua chegada e sua partida. Sei do seu nome e da sua finitude. Que assim seja.

29.7.13

Parte 6. Pulular

Fazia muito frio e eu só tinha uma lona. Mais uma neblina que me deixava embaçada. Meus ossos ficavam cada vez mais rijos, como se me perfurassem toda por dentro. A noite parecia infinita. Certa vez, li num livro de física algo sobre elétrons confinados e, me explicaram, havia um poço de potencial infinito, uma espécie de armadilha para que pudessem estuda-lo. Se sabem onde ele está, não sabem sua velocidade; se descobrem a velocidade, perdem onde ele está. Um salto quântico. Não sabemos de nada.

Eu me sentia num poço potencial infinito onde tudo paira e tudo passa. Memórias, realidades, expectativas. Tudo boiando dentro dos meus olhos, produzindo visões etéreas. Aquele barco me fazia boiar. E eu oscilava nas ondas, moribunda.

A lembrança de Marcos me fez perder esperanças, a vida ficou pingando no mar. Minha boca ficou seca. Não é o fim o que machuca mais, é o começo. As risadas, os véus que enfeitam a cama, o casaco vermelho comprado no Chile, o souvenir que ele me deu. Não sabia se era o frio que machucava meus pensamentos ou se foram eles que congelaram o mundo. A verdade é que o amor tem seus representantes e uma pessoa acaba por simboliza-lo. Ora, ora, e quando o amor diz que não te ama mais, algo quebra, um sino ecoa e uma parte de nós despenca.

Às vezes, amamos muito quem não nos fez feliz. Amamos o amor e não a pessoa. Às vezes, encontramos a pessoa, mas o amor é impronunciável, proibido.

Como por um milagre o dia tinha resolvido se escancarar num céu azul. E um broto de qualquer coisa germinava em mim. Resolvi sobreviver. Mas não importava o quanto eu quisesse, não sabia o que fazer para sair daquela situação. Continuava no barco, com pouca comida e sem direção. Arrumei minhas coisas mais uma vez. Cataloguei na minha mente o que eu tinha e o que me faltava. Passei o dia revirando a mim mesma, investigando minhas mãos, percebendo cada dobra, ruga, machucado. Escureceu cedo e se fez uma noite extremamente escura. A lua estava apenas um fiapo, pendurada no teto do mundo.

O nome dele era Felipe e tinha uma tatuagem no antebraço, cabelo enrolado e blusa da Itália. 

Eu olhava para um rapaz de blusa listrada, muito alto que estava longe. Olhava por cima das cabeças. A música em todos os ouvidos. Não ouvia nada, estática, decidindo o que fazer. Eu iria lá. Sim. Fechei os olhos. Pegaram minha mão. Mas não pude dar atenção. Ele estava se afastando cada vez mais. Uma voz no meu ouvido: Meu nome é Felipe. Não respondi. Minha mão albergada nas mãos de um intruso. Qual é seu nome? Fiz que não sabia. Oi, sou Felipe, qual é seu nome? Olhei. Ele sorriu. Esqueci de tudo. O que você faz? Sou professor. De quê? História. Para crianças? Ensino fundamental. Ele estava nervoso, suas mãos começaram a suar. Faço mestrado também. Estava cética. Qual sua linha de pesquisa? E ele falou por uns 15 minutos, sem que eu pudesse ouvir mais do que três palavras sequenciais. Relações de poder. Marx. Instituições. Com a mão direita segurava minha mão esquerda e com a mão esquerda segurava meu braço direito. Colou o rosto no meu e falava, tinha que gritar para superar todo o barulho. Pegava fôlego: eu sentia sua barriga, seus pulmões sorvendo ar. E, de repente, saiu daquele transe, se deu conta do quanto tinha se aproximado, apertou minha mão, largou meu braço. E pediu desculpas. Falei demais. Apertei a mão dele e disse: Não. Por que você veio até mim?, eu perguntei. Ele ficou surpreso, como se fosse impossível que eu não soubesse a resposta. Por que você veio até mim? Ele engoliu saliva, abriu e fechou a boca. Fez carinho nos meus dedos. Você linda. Sorri, encolhida, envergonhada. E ele me beijou. Disse que poderia ficar o dia inteiro me beijando. Disse que nós iríamos fazer um piquenique, que ele conhecia um lugar bom. Já sabia que frutas levar. E iria colocar uma canga e iria ficar mexendo no meu cabelo. Assim, beijando seu cílio assim. O dia inteiro, você acha uma boa ideia? Achava. Eu gostava da tatuagem. Um círculo com desenhos doidos lá dentro. Olhos castanhos. Cabelo grande. Nariz pequeno, tão sutil. Seu nariz é lindo. Você é bonito. Ele fez que não. Era sim. Beijei o nariz. Muito bonito, beijei a orelha. E o piquenique, você vai? Vou.

Um estrondo no casco do barco. Parecia que estavam socando todas as laterais. Não eram pedras. Algo caiu em cima de mim. Comecei a gritar. Joguei para longe. Abri bem meus olhos. E consegui ver mil pontos prateados que se agitavam no mar, era um cardume, ensandecido, pulando para fora da água. Pipoca de peixe. Fui ao encontro do que havia lançado para longe. Ainda agonizava. Eu tinha peixe, eu tinha cerveja. Festa.