29.9.14

Auto-ajuda number one :10 passos para se livrar do stress

PASSO 1- Pare de acreditar em listas idiotas
Sinceramente eu respeito que você esteja nervoso. Te respeito e te considero: de coração pra coração. Mas, nada - NADA - justifica burrice. O stress é um monstro latente e persistente. E é impossível que existam 10 passos para faze-lo sumir. Sinto cortar seu barato, mas: 10 passos para emagrecer com saúde; 15 passos para encontrar seu príncipe e 27 dicas para mais feliz. Não não não. Olha, loser, não vai dar certo. Tópico nunca levou ninguém a nada. Se fosse assim, o sumário seria a coisa mais incrível do mundo. E não é. Sumário é índice e índice é bobo. Seja maduro, por favor.

Resolvi ser inovadora e escrever sobre o stress, não num dia em que meu céu esteja límpido, mas no dia em que morder a cabeça de alguém se mostrou uma opção viável em vários momentos do dia.

Portanto, hoje vou te ensinar sobre como ser mais calmo e nunca sucumbir à ira.
Utilizando um rol exemplificativo, vou te dar algumas dicas. Vamos lá, garotão.

i. Se sua mãe, num momento de tédio raivoso, resolve dizer que você não estende a roupa que veste e não sabe o trabalho que dá. Faça um protesto p a c í f  i c o: fique andando pelado pela casa e pergunte se ela quer que você lave a louça.

ii. Se alguém muito fedido sentar do seu lado. E você não tem para onde escapar. Use de honestidade e amor: peide. E faça daquele ambiente um lugar equilibrado, onde você tenha coisas à acrescentar.

iii. Se seu chefe ficar de mimimi, fale: f o d a - s e. Brincadeira. Faz isso não. Vai dar merda. Fica na sua e toma iogurte diet, que a raiva passa.

Gostaria que você estivesse percebendo onde quero chegar: eu não vou te ajudar. Não tem como. Você que arrumou o problema e vai ser você mesmo quem vai ter que resolver. Só acho que ser positivo todas as horas não é saudável. Admitir-se ogro é imprescindível para viver bem.

Não olha pra mim desse jeito. Tá irritadinha: uiuiui. Sabe o que pensei, existe sim dez passos para se livrar do stress: a violência. Caminhe, 10 passos, até a pessoa objeto-de-fúria e dê uma esganadinha. Acaba com o stress. Mas você vai acabar preso. Eu advogo, mas não faço criminal.

Assim termino o primeiro article de self-help: Luv u!




28.9.14

Coração vagabundo

Há momentos em nossas vidas que a agonia é tanta que mais parece que vamos morrer sufocados, enforcados em nossas próprias tripas. A gente fica meio sem graça, meio parado sem entender se o golpe nos matou ou se matou tudo à volta. Uma coisa é certa: a desolação.

O pior, meu caro, é quando não há culpados e ninguém pode ser chamado de canalha. Eu tive uma longa cicatriz, remendei meu coração com uns trapos quaisquer, tentando ligar os pedaços esgarçados. Houve quem dissesse que isso não era direito, um coração andar tão roto. Tirei os panos podres e tive coragem de olhar longamente para as minhas feridas. Eram horrorosas e intransponíveis naquele momento. Mas, com esmero e paciência, elas se tornaram mais toleráveis. Houve quem dissesse que ele iria sarar ao todo. No fundo e no raso. E eu acreditei.

Acreditei plenamente que iria ser feliz e, de coração novo, fui me roçando na esperança. Mesmo com medo, ousei vislumbrar um destino mais bondoso. Onde houvesse menos rasgos. Era docinho esse futuro e eu quis te-lo.

Só que foi tudo algodão doce. Coloquei na boca e desapareceu. Só ficou o gosto. Fiquei confusa ao ver tanta cor se desmanchar. Feito uma boca que desmantela depois de dizer "eu te amo". Meu peito começou a arder, com aquela sensação tão conhecida. Acabou e é melhor ficarmos acabados.

Ah, coração vagabundo. Não tenho mais garantias. Não sei mais se ficaremos bem. Tragam os trapos.
Mais uma vez ao pó.

18.8.14

De hoje emdia.nte

Ontem antes de dormir, minha garganta já estava se fechando e meu coração já se afundava no peito. Uma angústia, tão interminável que eu me encolhi na cama. E fiquei assim por algum tempo: ouvindo o barulho da casa: a televisão moribunda, o chuveiro jorrando. Tudo embrulhado numa rotina preguiçosa e quieta.

Até que ouvi alguns passos. Ele entrou no meu quarto e se deitou do meu lado. Abriu os braços e eu me embrulhei nele. A sensação de sentar embaixo de uma árvore em um dia estonteantemente quente e azul. Minha mão sobre uma barriga que respirava, com umbigo e tudo. Calma. Barriga calma. Acho que amar e ser feliz é poder grudar as orelhas nas costelas de alguém e poder adormecer com a cabeça amparada por carinhos sonolentos.

A gente ama bem, na hora do cansaço extremo: quando a gente sente muito medo e se torna insuportável. A gente ama mesmo quando sabe que a vida é um furacão que arremessa nossos tesouros para muito longe.

Mais. Vamos intuindo onde os pedaços foram pousar e iniciamos uma busca. Vamos ao reencontro. Desenterramos, limpamos. Aprumamos. E dizemos: você é meu. Amor.

Seja a saúde, seja a doença. A euforia ou um novo emprego. São tantos os fatores geradores de caos. São golpes inesperados que nos deixam sem ar e sem lágrimas. Ficamos atônitos. Mas, no meio disso, nessa perda desenfreada, alguém nos abraça. Um olhar nos resgata e a gente consegue ter esperança.


E eu acho que isso merece ser celebrado. Somos um conglomerado de pessoas imperfeitas que se ama. De barrigas calmas. E mentes agitadas. Com umbigo e tudo, desafundadores de corações, aparadores de cabeças cansadas. E isso basta. Aliás, sobeja.

11.8.14

Excelsa

O dia demorou a começar. Ao que parece eu estava transitando em qualquer lugar que não me dizia respeito algum. Há algumas fases em nossa vida, em que estamos no entre-sonhos. Eu vejo a dificuldade e o medo de sairmos desse platô. Tivemos um vislumbre, mas aos poucos, nos perguntamos se o que vimos foi miragem ou se é nosso destino.

Para mim, destino é lugar a ser conquistado.  Aliás, eu percebo que a vida é um grande formulário em que nós criamos todos os campos. Percebo também, que há momentos em que não faz diferença se andamos na escuridão ou na luz: tudo mudou e não conseguimos reconhecer o caminho.

Uma sensação incômoda de pré-mudança. Tudo parece o mesmo, mas não é. E não sabemos explicar o que mudou. Só sabemos que não é. E mesmo sem termos nos deslocado, no mesmo cenário, a continuidade de alguma coisa parece ter sido interrompida.

Será que somos nós quem mudamos? E o olhar lançado não é capaz de capturar o que fomos. Será que houve um movimento mais rápido do que fomos capazes de assimilar? E vivemos momentaneamente em um espectro, uma mistura entre passado e realidade não digerida. Será que é inteligível essa crise, de maneira que essa confusão possa ser debatida, trabalhada e revertida?

E, daí, o ponto principal. Será que o novo já não se esfrega na nossa cara de forma tão descarada que já seja a hora de admiti-lo?

Não.
Não sei.

Meu conhecimento se mostrou insuficiente para interpretar os panoramas. E diante dessa falha, de meus parâmetros agonizantes, fico assustada e me sinto incapaz. Não que haja infelicidade ou motivos para um tango argentino. Nenhum desastre. Tudo vai bem. Só não sei para onde. Só não consigo imaginar o que vem depois da esquina. É a falta de projeção o que mais nos paralisa. A sensação latente de que não sabemos mais como construir um ponto de equilíbrio. E mesmo que ele nos seja dado, entregue pela graça divina, ficamos cônscios de que não sabemos como reconstituí-lo.

Meu caro, é a falta de onisciência, onipotência e onipresença que me aflige. Descobrir-me humana foi um dos maiores sustos que vivi recentemente. Porque eu bem que tinha me esquecido , como que por um lapso, dos elementos-surpresa. E levei uns tapas na cara, tantos bons quanto ruins: só para me lembrar que eu não sei de quase nada e vou ficar sem saber. E, sobretudo isso, tive que reassimilar a ideia de que a falta de controle, não deve me gerar insegurança.

Eu demorei a descobrir que as nuvens ficavam suspensas no céu. Eu pensava que no teto tinha algo para suspende-las. Quando me foi dito que nuvens, planetas, luas e tudo mais gravitavam, isso não me gerou fascínio, mas terror. Constantemente orava e pedia a Deus que não se esquecesse de segurar a Terra, para que não caíssemos de tão alto e as nuvens não nos esmagassem. Hoje vejo que meu medo sempre foi o desmoronamento.


Mas, para quem acredita em paraíso, o final das contas não é assim tão meia boca. Eu posso dizer que fui sobrevivente de alguns deslizamentos e vi escoar muitas certezas, mas nunca nada destruiu tudo. Então. Sabe como é. Vamos ouvir Zeca pagodinho, fazer tatoo de borboleta e confiar que tudo vai dar certo. Ai ai, Deus, como é difícil não ser Excelsa.

24.7.14

Bonequinha

Eu deveria escrever sobre política. Habeas corpus, habeas data. Eu deveria escrever sobre cuidados com as verduras, dentro e fora da geladeira. Eu deveria pensar em escrever uma tese bombástica salvífica e porreta. Mas não. Só penso em amorzinho. Só penso em meia no pé, esfregando na canela do outro.

Meu estado de espírito é qualquer coisa como o sorriso de um velho simpático. Um velho com boina, com roupas cinzas. E de suéter amarelo, ai-Aconchego gostoso. Venha aqui.

Tenho pensado muito na Tia Nea e toda vez minha vontade era coloca-la numa caminha de algodão. Queria poder estrangular os problemas com a força dos meus pensamentos. Mas eu não posso e ninguém pode. O cabelo não deixará de cair. Mas outro vai crescer. As lágrimas não deixarão de rolar. Mas os sorrisos serão gigantescos, mal caberão na nossa cara. A alegria mal caberá no nosso peito. Nós mal caberemos em Ilha Grande. Seremos tão maiores, seremos todos tão mais fortes.

Se a batalha é anunciada, diga aos inimigos que lutaremos. E nenhum de nós aqui é sozinho. Que não hesitaremos em vencer. Que não abriremos mão da esperança. Se a batalha é anunciada, diga a quem for, que verão um espetáculo. Verão uma gigante nascer. Diga a eles que verão novos corações paridos.

Avisem a todos que a dor não nos traz medo. Estamos sossegados, cônscios da nossa força, completamente submersos em amor. Eu acredito que diante de nós, o medo perde os sentidos. Nós nos grudamos uns aos outros, emaranhados em consolo.

Depois daquela curva, logo ali. Logo logo, as palavras vão ter que ser resignificadas para que eu possa explicar, quão linda foi a jornada, para eu poder lhe explicar o que realmente quer dizer vitória.

Tia, nós somos teus. E juntos podemos muito.

16.7.14

Ai, ai ai ai: chegada-hora


Ai, que falta você me faz, passarinho. Aquele sorriso todo escancarado. Que falta, passarinho. Eu acordo de manhã e lá está você dormindo. Continuo o dia todo com aquela imagem sonolenta nos meus olhos. Imaginando o que é que você anda sonhando, se há algo que eu tenha que possa servir. Vira e mexe a gente se tromba. Às vezes te beijo, às vezes derrubo. Com um amor estalado feito bola de chiclete.

Ai, que alegria você me faz, meu peixinho dourado. Essa voz macia, feita de algodão maciço. Que alegria, peixinho. Vejo você nadando pelas ondas, lambendo o sol do mar, se embolando na espuma. Nessa sua existência lustrosa, você sempre volta e me conta. Sobre a temperatura da água em uns olhos inundados.


E você que nem sente saudade, meu amor. Foi parido em linha reta, sem firulas ou desvios. Se há desejo é porque há, se existe amor, que abunde. Sim, meu coração, aprende a falar e a entender simplesmente que é hora de ser feliz.

3.6.14

Elixir

Eu precisava de algum espaço para entender minhas novas dimensões. Por um instante me dei conta de que nada havia mudado. Como se eu tivesse piscado e tivesse adormecido dentro daquele segundo. Dormido e levantado, sonhado em uma faísca de tempo.

Meu personagem favorito estava em seu último trecho: o fim da saga. E eles não se amavam mais. Nunca mais. Ele parecia feliz com o novo desfecho, mas eu não. Parei de achar engraçado. Eu queria que a nova obra fosse a reprise do passado. Mas não. Ele mudou, a mulher o deixou e ele ficou sozinho com uma chinesa. Pra conseguir um visto. Sem lutar para reconquistar o amor daquela que o abandonava. Mas eu estava lá, fincada. Esperando que, ao menos, ambos ficassem sozinhos e tristes. Seria um final feliz. Porque há uma dificuldade absurda em enfrentar novos amores, diante daqueles gigantescos e vultuosos que já conhecíamos. Uma preguiça de viver uma alegria ou qualquer expectativa.

A maturidade traz consigo o desmoronamento do imperativo.  Nada é pra já. Sempre e jamais nunca existiram. Não sei se liberta ou intimida a consciência de que é possível amar muitas e muitas vezes. Não sei se consola ou estraga saber que não morreremos de saudade ou por amor ou de amor. Não sei se inquieta ou acalma perceber que a vida é um ciclo e que sobrevivemos a quase tudo.

Digo que sobrevivemos a quase tudo porque muito de nós tomba no caminho. E fica sem ser enterrado, belo caminho, com a boca cheia de terra, com as unhas meio sujas, um vestido roto. A gente morre. Morre aquela ingenuidade de achar que tudo vai dar certo. E começa a entender que tudo pode dar certo. Que não existem garantias, mas que a felicidade está aí para ser mordiscada.

Odiei ver o fim dessa trilogia. A partir de agora, para reve-los preciso repetir as estórias e ver os mesmos diálogos. A gente tem saudade, sem ter condições de perguntar o que mais acontecerá. A gente nem sabe se eles continuam a viver ou se os personagens congelam depois que os créditos sobem. A gente fica sem saber como a vida funciona. É estranho. Muito ruim. Às vezes era até melhor não ter continuação.

Percebo que o fim causa um espanto e uma certa comodidade. Todos os dias somos seduzidos e convidados a nos esvaziar da esperança no eterno.

Pois
bem
acabou