E então acabou. Eu lembro de quando era pequena, por algum motivo cósmico, eu tinha muita remela. Talvez porque fosse criança e não lavasse o rosto quando acordava, driblava a fiscalização de asseio e tentava ganhar o mundo. Mas lá estava minha mãe, uma barricada antes da porta. Com os dedos molhados de saliva, ela me limpava e brigava comigo. Lembro de ter chorado mais de uma vez porque ela tinha passado baba em mim. Passei a lavar o rosto.
Um ano novo é mais ou menos assim, a gente tenta se safar dizendo que rolou um cochilo, mas não tem jeito: ou a gente se limpa ou vão nos higienizar com cuspe durante um bom tempo. Por isso, meu caro, é melhor lavar a cara e encarar que já estamos despertos: prontinhos pro que der e vier.
Saia bem bonito para esse novo calendário. Seja sexy, charmoso e cativante. Cada mês do ano uma fantasia. Essa é a minha perspectiva. Mas você bem pode encarar a vida com aquela folhinha da mercearia. Feia que dói. Com letras azuis sobre o fundo amarelo te desejando boas festas. Continuo achando que quem deve fazer seu tempo é você, estampar suas próprias gravuras e dizeres, marcando sua pequena Era.
Eu sei que vou sambar no caixão de 2014. Ê aninho tinhoso, arrancou meu couro, furou meu bucho. No dia 31, às 23:59, vou gritar no meio da praia, escandalizar a vovó: "ano bacurento, eu vou e você fica". Vou combinar uma série de gestos obscenos, pra ofender as safadezas que me aconteceram. Um exorcismo completo.
Rodou o ponteiro e. Meia noite vou estar sorrindo. De branquinho, pulando ondinha, lambendo a lambida da minha cachorra. Vou comer sete uvas, engolindo os caroços. Mentalizar desejos e pedidos. Vou dar gritinhos com os fogos. Como sempre fiz. Não importa quantas vezes dê errado, a gente tem que zerar os medidores. Felicidade é recomeçar leve e breve. A vida é aqui e agora, e o que se foi, não pode nos levar.
E que venha o carnaval.
15.12.14
A verdade eu sei de core.
Sinto, sinto muito. A vida é uma
composição engraçada de encontros. A sensação de que a pessoa se foi é brutal
para mim. Uma morte vivente onde substituímos os apelidos, o papo, os beijinhos
no pescoço. A verdade é que há substitutos melhores que outros. Tem gente que é
mais sedutora, que encaixa na nossa existência de uma maneira deliciosa e é bom
demais sorver essa sensação.
Uma vez me apaixonei por um cara
que era plantador de cerejas. Com um sotaque de alemão, ele me dizia que era um farm boy. Adorava falar sobre as roupas
térmicas dele. Na hora de dizer adeus a gente chorou, bêbados, cansados de
tanta alegria. Foi uma das noites mais divertidas da minha vida. Ele fazia
dança de salão lá nos Alpes e me fez rodar muitíssimo ao som daquela salsa
desenfreada. Ele plantou bananeira e andou de cabeça pra baixo na linha do
trem, pra me impressionar. E impressionou. Muito. Nosso primeiro beijo foi como
meter os dedos num cabelo muito sedoso: macio, contínuo: um passeio.
Ontem achei um bilhetinho que ele
me deixou, dizendo que foi wonderful o
tempo together. O que mais me emocionou
foi ele tentando me explicar, dispondo de algumas poucas palavras em inglês, um
encantamento que estava acima de qualquer linguagem. Ele me dizia que olhos
azuis são gelados, mas os meus eram marrons e grandes como os da Bambi. Ele
disse que cabelos lisos são boring,
mas os meus eram...eram...e fez um espiral com as mãos e pegou um cacho do meu
cabelo. I’m just a farm boy, ele
dizia. E se embolava com ele mesmo dizendo que meu sorriso era aberto e beautiful. Ciente de que eu o havia
escolhido, desde o começo, me perguntava why
me?
Porque eu gostava do nome dele.
Gostava do silêncio dele, extremamente confortável. E gostava muito do jeito
como ele me olhava, pausado, grave. Ele piscava pouco, mexia pouco a cabeça e
olhava, olhava. Enquanto tudo se movia, ele estava lá. Eu me sentia
completamente segura.
Essas pessoas são estrelas
cadentes, a gente vê a trajetória, tem um desejo, mas não sabemos onde vai
parar. Geralmente some no ar. Geralmente sim, mein lieber.
10.12.14
Cumpady, experiência de vida.
Ontem fui fazer uma audiência pra lá de Bom Jardim, depois ali de Cordeiro. Cantagalo city. Como era perto (5h de viagem), fui e voltei no mesmo dia. Como mudaram os pontos de ônibus do Centro, pensei que iria andar 25m, mas tive que andar até a Leopoldina pra pegar o busão. Como castigo é pouco, só tinha lugar em pé no coletivo. Resoluta, forte e remelenta fui lá para o fundo.
Foi quando um carinha se encaixou em mim. Mas não fez safadeza não: ele estava de costas e era assim muito alto, de modo que a bunda dele se encaixou em cima da minha. Eu dei uma rebolada, pra ver se desfazia a posição, mas o certo alguém não queria. Vinha uma curva e paf, lá estava a bunda dele na minha coluna, amparado pelos meus glúteos cansados. Depois de muito lutar, me resignei e carreguei as nádegas dele Av. Brasil a fora.
Para meu completo susto, lá para as bandas de Vigário ele me catucou: dedinho no ombro. Como quem espera a revelação do vilão do Scooby-doo, virei lentamente. "Tem lugar aqui." Bom, tinha mesmo, na frente dele. Meio que hipnotizada, sorri e sentei. Para o meu esbaforimento geral ele tinha os cabelos de Compadi Washington e uma blusa vermelha do Tcheguevaran. Pirei. Porque sabe o que isso significa?
Absolutamente nada. Só que servi de suporte de traseiro e ainda há quem use Kolene - socialisticamente.
14.11.14
Títulos e glória
Tava suave na nave (busão da Master), quando um bêbado muitcho crazy resolveu embarcar. Ele fez duas amigas: uma velhinha de 80 anos e uma senhorinha robusta de uns cinquenta-e-blau. Lá para as tantas ele resolveu contar do filme que assistiu: CANIBAL. - Ontem vi um filme canibal, onde uma pessoa comia outras pessoas, comia braço, perna, até coração comia.
A velhinha se alarmou: - Mas comia de verdade?
- Comia - ele disse. Comia sim. A gordinha achou engraçado e começou a sorrir com um arzinho de superioridade de quem pensa que sabe das coisas. O Bêbo fez questão de combater sua arrogância com a realidade dos fatos: - Você está rindo porque não estava lá, com essa fofura toda, ia rodar rápido e alimentar uns dez canibal.
Os passageiros do bus-Master se escangalharam de rir. A cinquenta-e-blau achou foi bom, se sentiu assim uma delícia a ponto de ser devorada. Piscou, trejeitou e arrumou o cabelo atrás da orelha. Gostosa. Absolutamente hot. Eu observava tudo de camarote, quieta, quase sem respirar. Mas ele me notou.
-Psiu.
Fiz que não percebi, continuei a descascar os esmaltes das unhas e cantarolar uma música do Blitz.
Ele: - Ei, psiu, eu te conheço.
Olhei. Não resisti.
- Você é da Globo?
Ai. Boom: - Sim, sou! Trabalho no Faustão!
Ele quase engasgou de nervoso: Sabia! Te conheço de te ver.
- Lógico, todo domingo estou no ar. Sou apresentadora no Faustão.
Ele abria e fechava a boca, atrapalhado nas possibilidades: - Me arranja um emprego na Globo, o primeiro salário é seu.
Fiquei pensativa, como que ponderando, e resolvi aceitar a proposta: - Mas vai ser todo meu.
- Sim, todo. TODO! O primeiro é todo seu.
Ele levantou os olhos e viu uma mulher toda de rosa, cheia de maquiagem e um ar lustroso. - Olha que garota linda, me apontou com os olhos.
- Eu a conheço, trabalha comigo no Faustão - ela deu um sorriso faceiro e fez uma pose global. Bebim estava completamente fascinado. Duas, duas estrelas.
- Qual o seu nome - ele me perguntou.
Pensei, curti, proferi: - Clara. Ele me pediu: pergunta meu nome!
Pergunto: - Qual seu nome. Ele, esperto sem ser vulgar, disse logo: Tingana!
- Tingana, no domingo vou mandar um beijo pra você, na hora do Faustão.
Ah, mas isso era demais. Ele começou a se mexer no banco, eu tinha acreditado que aquele era o nome dele e mal podia conter sua excitação, como uma criança que recebe uma bala 7 belo de um quilo. Ele olhou pra mim, colocou as mãos nas bochechas e disse: - Você é a mais linda. Eu te amo. Você é a Miss Brasil.
O povo da lotação se animou: vários gritinhos: arrasou!: tá podendo hein!: êlaiá. Mas ele não se importava. A paixão o havia dominado. - Miss Brasil, você é linda no Faustão!
Meu ponto tinha chegado. De forma romântica, deu um grito bem aberto: Miss Brasil, você é a melhor!
O vendedor de legumes (qualquer saquinho por 2 reais) deu uma conferida em mim e pareceu concordar com Bebucho. Reconhecimento em Duque de Caxias. Nada mais lindo. Nada mais forte. Nada mais verdadeiro.
À minha coroação, um brinde!
6.11.14
R.e-leve
Meu corpo está imunodepressor.
Qualquer tédio ele se acende com uma febrezinha. Meu pulso se enfraquece e meu
olho fecha. Fico cansada de rir e só quero dormir. Meu corpo está de saco cheio
de comer em lugares que não gosto, de ir para o fórum da Pavuna, de ver juiz
careca.
Meu corpo quer sol no corpo, besuntado
com suor, lambido de mar, cochilo com livro na cara. Meu corpo sabe o que é
bom. Por causa disso, meu sangue já está ficando ralo, as hemácias estão
metendo o pé. Acho que preciso me apaixonar, para elas quererem ficar. Porque
aí nós vamos ganhar sonho com recheio de doce de leite, a gente vai tomar água
de coco pra dedéu e as hemácias vão se amarrar. Os leucócitos também não estão
de boa. E isso me preocupa. O médico disse que eu tô na borderline e que eu
tenho que ter uma vida mais light. Filho, eu gosto de intense. Vê se cresce.
Os leucócitos vão voltar. Vou dar
um jeito. Vou comer fígado. Meu chefe
mandou eu comer inhame. Ai. Meu Deus, eu mexo com tanto papel que estou ficando
fraca. Essa porra é que está me dando anemia. Um monte de palavra brega.
Acórdão, indeferido, indeferido. Tinha que ser wave, croissant, pelota. Iria
ser outro nível.
Fico sem entender se eles
brigaram entre si ou se estão os dois contra mim. Hemácia vaca. Minhas células
vão morrer se você não se proliferar logo. Falta oxigênio e os carai. Meu olho
ficou fulo com isso, só quer se fechar, esquecer do mundo, vê mulher gorda e
irrita meu cérebro. Uma guerra sanguino.lenta.
Agora eu te pergunto: Leucócito
não é quem protege a parada toda? E como assim, sabe. Só tenho 100 a mais do
mínimo, tenho 4600. É o que digo. Semana passada levei todo mundo pro samba.
Dei cerveja pra geral. Nessa hora ninguém se fagocita, ninguém arreda o pé. Mas
na hora que enfiam uma seringa do tamanho do Japão na minha veia, a galera
arrega. Leucócito arregão. O que faz leucócito aprumar? Alho? Nem sei.
Pra você ver, a gente tem o corpo
completo: mamilo, boca, tornozelo. Mas nunca é suficiente. Aposto que foram
atrás de um atleta qualquer. Corpo sarado, ele
toma suco detox. Vai vai todo mundo, me deixa só com o esqueleto e com as
veias, que eu não preciso de vocês. Vou importar sangue puro, sangue sueco, com
ascendência em libras. Vou dar do bom e do melhor para os meus núcleos
celulares: prometo! Quem ficar, não vai se arrepender. Vamos viajar no verão.
Vou contratar um massagista professor de axé. Não ouço mais Naldo. Acabou, juro.
Tocou, a gente rala. Sexo que eu não posso garantir: a vida é um moinho e essas
coisas são complicadas.
Hema, Leuc, conversem com o
Lipídio, cara. Ele sempre tá por aqui. Me adora. Não me larga. Acho que vocês
deveriam reconsiderar e. E, sei lá, ficar comigo.
5.11.14
O(u)caso
Se você me perguntar como
aconteceu, lhe digo que foi feitiço. De uma hora para outra recebi um peteleco
no coração e ele voltou a bater. Destrambelhado, lambendo os beiços, cabelo
amassado, coçando a bunda para tentar entender o mundo.
A surpresa do movimento foi tanta
que. Que nem sei. Fiquei assim meio boiando, comendo flores pelo caminho.
Sonhei com o mar ártico. Não lembro quando disse não, nem quando disse sim.
Esqueci se cheguei a falar algo. Foi encantamento: perdi as estribeiras:
gritei: fiz: aconteci. Cochilei e adormeci.
Aí você me pergunta: que houve?
Rapaz, bateu um vento e meu peito
levantou voo(u).
22.10.14
Mostarda e mel
Na sala em que eu trabalho há uma
foto de Buenos Aires. Uma panorâmica da Avenida 9 de Julio. Uns prédios
enormes, um anúncio da Samsung e o Obelisco. De vez em quando me pego dentro da
cidade, olhando para o céu estupidamente azul, observando aqueles carros da
década de 90 passarem. Nostalgia, acho. Essa viagem me dá nostalgia porque não
convivo mais com ninguém que tenha participado dela: nem eu sou a mesma. Sinto
saudade daquelas pessoas. Sinto muito. Por outro lado, olho ao redor e vejo
que, em maior ou menor medida, estamos todos bem. Então, tudo certo.
Acho que poucas coisas são mais deliciosas
do que ser chamada de guapa, saí da
boca deles se derramando. Que linda, que
linda. Numa espécie de feitiço, os hermanos são todos seus. Eles são assim
charmosos e possuem umas jaquetas e penteados impronunciáveis. Umas barbichas
estranhas: absolutamente irresistíveis: a Argentina.
Eu sempre achei que me
apaixonaria só uma vez. Mas, posso dizer, minha profecia ficou caduca. Me
apaixonei uma vez e amei outra vez. Mentira. Não faço a mínima ideia de como
classificar minhas vivências. Só sei que foi bonito, intenso e bom. Depois, foi
o caos. Dor no peito, sensação de finitude completamente sufocante. Assim é a
vida. Uma alternância imprevisível de bala Juquinha com chá de boldo. Uma hora
está tudo muito docinho, outra hora uma amargura difícil de engolir.
Mas, a gente engole. E depois até
repete. Só não sei se a gente se convence de que isso é normal. As coisas se
esfarelam. Areia é farinha de montanha e fica lá na praia, pra sempre beijando
o mar.(Espertinha) Estou farelo de mim mesma sem saber se luto para me recompor
ou se mantenho a nova forma. Umas decisões bizarras e cogentes. Viver é um
grande truc.
E se você perguntar: tá triste,
garota? Digo: olha, tô triste não. Só tô olhando. – Sabe aquele estado de
observação em que ainda não estamos bem certos do que sentir e de como
interpretar os acontecimentos? Aí, a gente fica assim com a alma meio parada,
come esfirra, vê um filme, até que, de uma hora para a outra, a gente desperta,
com um pensamento já pronto e quase tudo resolvido.
Tô olhando e comendo esfirra, meu
senhor. – Na fila de espera de mim mesma, aguardando o ardente desfecho. - E
espera até quando? – Ex-pêra. Não sei, tô numa vida de repolho, na suavidade da
alface americana.
Sabe? – O quê?
Sei lá.
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