26.6.11

Pronunciamento

Cabe tudo no silêncio. Se o barulho.
Se o barulho não é uma tentativa de despistar essa amplidão. Por tanto. Queremos porção, uma poção de palavras para dizer o que foi - o que é - e o que sermos-emos.
Um punhado de sentenças. É a vontade.

Mas só há cala calam. cala midade.
Bocas cerradas. E mais nenhum encantamento sendo proferido. Já há tanto! Sim. Tanto desejo, que quando for dito, quando a palavra roçar a realidade: sedentos, devoraremos todos os sentidos.
Nós vamos lamber os conceitos. Memorizar as máximas. Estampar a síntese.
Utilizar nomenclatura.
Porque o silêncio, querido, é uma espécie de dita dura.
Ao nada, falta superfície. E sobre que textura nos debruçaremos?

Esse significado arreganhado que o silêncio traz. É um convite à invenções.
O silêncio são palavras desmontadas.
Nossa vontade é cavalgar.

12.6.11

Fim de festa

E vem uma dorzinha no coração. Uma tristezainha de inverno. Aquele muxoxo de fim de festa e, ah, a conclusão se instala, leve leve, boba boba, certa bomba, ai: acho que virei estatística. E agora? Bem, amigo, a esperança é resignificar. Deve haver quem decodifique. E se eu for número, que eu seja símbolo. Agora, senta aqui. E vamos ver a paisagem. Nesse banco. Para sempre. Esperar.

29.5.11

Moradia

E onde mora o medo. E o que se teme: partir ou chegar? Quando me parte ou quando se chega. Em que tempo. Em qual pessoa.

Mas que temos medo de ver. E nossos olhos estourarem. E todos os sentidos se perverterem com a visão. E de repente o tato navegar em cores. Então, o paladar engolir sons. E os nossos olhos escorregarem para dentro de nós. E medo de nossos passos deslocarem os significados. O mar se afogar na areia coberta. Sentirmos a Terra como o pote do vento. Entender o fruto como a morte da flor.

Mas o que fazer? Para evitar esse desmonte. Derrubar planícies? Construir uma floresta: estacas de folhas por todos os lados e fazer das copas, as montanhas. E relevar melhor a vida. Fazer com tudo mais altitude.

Mas talvez uma ciranda resolva o problema, com danças bem triviais. Flautinhas. Um trombone. Um ritmo de circo. Fitas penduradas aqui e ali. Talvez umas luzes coloridas. Talvez dê jeito. Um mexicano com um bigode bem engraçado. Talvez conserte as coisas. Uma roupa mais florida, quem sabe não resolve a situação? A risada de um velho sem dente. Pode ser um solucionador. Aquela gengiva aberta.

E quem sabe não exista mais nenhum problema e o medo seja transformado em saliva. E se cuspa medonhos, no meio da rua. Escancarado e público: o medroso estirado no chão. Moribundo medoinho.

Vida, me tire para dançar. E vai ser infinito esse baile. E eu escondo meus pés. E não se sabe meus caminhos. E me tire para dançar, que eu faço o sol se pôr aos nossos pés. Ah, me tire para dançar. E veja se aguenta a felicidade. E Paquetá será pequena para nós dois. E pedalinhos faltarão para nossas pernas. E o Pão de açúcar caberá no céu de nossas bocas. E Cristo há de nos redimir. A Lagoa terá mares de oceano. Em todos os cenários caberão serenatas. E as risadas serão nosso amuleto; os suspiros, nossas medalhas. Não faça desfeita. Tira. Dança. Venha: vida.

25.9.10

Que fim?

Certa vez, tive uma experiência miraculosa. A situação é a seguinte: eu andava amuada, cansada e tristonha. E era tão impressionante meu estado que, ao passar pelas ruas, eu acabava assustando as pessoas. Olhava pros bebês e eles choravam; cumprimentava as velhinhas e elas deixavam a dentadura escapulir... os cachorros escondiam o focinho e faziam xixi, tão impactados que ficavam com a minha presença. Eu achava tudo aquilo muito esquisito, mas não imaginava como uma pessoa com todos os dentes e olhar delicado poderia criar tanto reboliço.


Foi um velho mago alcoólatra que me revelou a verdade toda. Veja só como são as coisas. Estava eu passando pela calçada, quando Zé Otávio, meu vizinho, falou:
- Eu sei do seu mal. Conheço de perto sua maldição.

Ora ora, fiquei extremamente alarmada, porque com maldição pessoal não se brinca. E eu tão fofinha...com encargos tão sinistramente atrelados à minha existência. Obviamente fiquei inquieta. Resolvi ocupar minha mente com seriados americanos, músicas nordestinas e enigmas orientais. Foi inútil. Aquela sensação de maldição, profunda e totalmente condizente. Sim, Zé Otaviano tinha razão: eu estava almaldiçoada.

Meu cérebro não funcionava com um sincronismo muito louvável, de modo que eu não conseguia pensar em uma saída. Uma frase, uma atitude bombástica. Minha cabeça estava vazia de maiores atividades. Eu só pensava curtinho e de duas em duas horas. Sabia que havia um mago, uma maldição e uns probleminhas de relacionamento entre eu e o mundo. Parece que eu andava causando repulsas. Eu, criatura meiga e fofa, com todos os dentes. Certo.

Fato era que isso tudo me deixava extremamente chocada, pois que sempre fui muito graciosa e elogiada pelos meus familiares e de uma hora pra outra me transformo. Enfim. Dificuldades na absorção da realidade, todos temos esses períodos. Confesso que fiquei deprimida de meu assistente - e possível solucionador do mistério - ser meu vizinho bêbado. Ele andava de bengalas e tinha uma fala truncada. O que esperamos de um sábio moderno? No mínimo, é um professor universitário, respeitador das regras de regência, advérbios super invariáveis, conhecedor de cálculos, fazedor de integrais. Mas não. Não. E isso já me deixava arrasada, perceba que a minha estória de vida começava a se transformar em um conto tosco.

Sem pensamentos preciosos, gastava a maior parte do dia me dedicando ao sono e à observância do horário eleitoral. Sinceramente, achava que a injustiça que se instalava na minha vida era enorme. E fui ficando aborrecida por um tempo e mais um e mais um, até que se formasse um conjunto quase infinito de tempos, daqueles que nos inquietam e começam a se avolumar. Aquele tempo gordo e enfadado. Admito que fiquei sem escovar os dentes alguns dias e que me entreguei devassamente ao pote de doce de leite. Fiz loucuras. Não me julgue. Bebia pouca água, não tirei o esmalte das minhas unhas e usei o mesmo sutiã por oito dias seguidos.

Em um dia de sol, fui comprar batata palha na mercearia no fim da minha rua. Fui com meu short verde, descombinado com a minha blusa vinho. Usava os chinelos do meu irmão e o cabelo preso como o da Olívia Palito. Fui lá. Eu tinha uma missão: comprar um produto industrializado. O que eu não sabia era que o meu vizinho Zé Zezinho iria sair de trás de uma árvore e golpear minha canela com aquela bengala nojenta.

- O que é isso seu louco?! – eu gritei.
- Um golpe, sua burra. – ele respondeu secamente.

Saí correndo, tropecei numa raiz e voei uns três metros. Fui estacionar bem perto do degrau da minha casa, com várias pedrinhas encravadas no cotovelo e queixo. Não chorei, nem tive raiva. Levantei, organizei meus ferimentos e almocei. Conforme era previsto. Depois da última garfada, minha mãe me olhou de uma forma diferente, como quem estava perdendo minha imagem e comecei a desconfiar que ela não pudesse mais me enxergar. Uma angústia invadiu meu estômago e começou a revolver minhas entranhas. Comecei a suar e ficar tonta, mas parece que ninguém se importava: não tiraram meu prato da mesa, nem me ofereceram sobremesa. E assim, aos poucos, tudo foi se ausentando. Esvaziaram meu quarto, deram meus livros.

E, de repente, eu estava sem lar, sem entender o que acontecia. O único que ainda me reconhecia era o Zé e ele se tornou meu amigo de silêncio. Ele se embebedava com as dores da vida e eu continuava ébria da minha ignorância. Comecei a vagar pela noite, caçando estrelas com os olhos, encurralando brisas com as mãos. Até que um dia não agüentei e me rendi:

- Zé, o que há comigo?
- Esquecimento, minha filha.
- Esquecimento de quê?
- Viu?! – ele gargalhou.

Eu comecei a chorar muito. Porque não me lembrava de nada de tão importante que eu tivesse esquecido. Eu percorri datas, fatos, temperaturas. E passei muito tempo recordando, mas eu era como um aquário que deseja ser oceano. Coitadinha de mim.

- Seu Zé Otávio, qual é meu mal?
- Minha filha, seu mal é aquilo que você quiser.
- Meus anseios são minha maldição?
- Não, querida. Não. – ele riu.
- Eu não entendo.
- Nem eu! – ele disse calmamente.
- Então por que você é o mago da estória? – perguntei irritada.
- Ué, porque você me colocou aqui.
- E aquele papo de maldição?
- Minha filha, eu sou só um personagem qualquer. Você quem inventa minhas falas.
- É?
- Pois sim. São boas, né? – ele disse com uma piscadela.
- Eu gosto. – eu balbuciei triste.
- Ei, você é autora, não pode ficar assim tão finita.
- E o lance da cura miraculosa? – eu resolvi indagar.
- Eu também não estou sabendo de nada.
- Ai, Zé. E agora?
- Sei lá, me transforma num príncipe e vamos morar no Caribe. Troca meu apelido para Diguinho.
- Será? – fiquei me perguntando indecisa.
- Uma possibilidade, foi uma idéia. A gente podia fundar um Império, ensinar artes marciais para o nosso povo.
- Não, deixa isso pra lá. Vou acabar com isso tudo.
- Mas e eu? – ele já tinha se travestido completamente e agora era um homem forte de pele dourada e olhos verdes.
- Eita, não sei.
- Cara, não me mata, isso é maior vacilo. Tudo bem que não tenhamos um romance por causa do meu passado. Agora, se mandar, cheia das narrativas, também não acho isso certo.
- Se eu acabar com a estória você morre? – eu perguntei.
- Vai saber. Gente, eu estava quieto na minha inexistência, então eu nasço bêbado e mago. Por quê?! O que justifica essa malvadeza?
- É que eu não estava conseguindo estudar.
- Matéria difícil? –ele perguntou.
- Um pouco. – disse envergonhada.
- Eu entendo. Vai, me mata. Acaba comigo.
- Como?
- Mas que autora incompetente! Um ponto final. Coloca um ponto final.



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7.7.10

Maldadiagem

Você magoou meu coração. Fez um rombo do tamanho de um avião ultra-sônico.

Maldade pura. Essas coisas não se deve fazer. Deve não. Ai.

Agora fico andando com esse sonho estrangulado, de pescoço quebrado e pernas se arrastando. Carrego a esperança morta como uma espécie de véu de noiva, só que roto e amarelado. Uma desolação.
Meu coração, coitado, está encolhido feito caroço na uva: com medos de ser devorado. Pois a semente quer logo se lançar na terra e dispensa passeios no ventre dos comilões.
Mas eis a injustiça do mundo. Deram uma mordida onde eu estava e fui carregada, toda envolta de polpa. E tendo minha germinação adiada fiquei lá, ensebada na espera. Ouvindo o tempo. Contando ventos. Cheia de vontade de nascer. Mas não, tragaram-me sem querer. E aqui sou inútil, uma pedrinha, um incômodo bah! Um deslise paf! Mas se me derem um solo, hm...um solo para me cobrir: eu viro toda árvore, sou toda fruto e alimento um mundo inteiro.

25.5.10

Sideral

- Estou enfrentando um problema grave, meu senhor.
- Qual probrema, minha filha?
- Ando sofrendo de nervos.
- Nervosa?
- Um pouco. É que toda vez que olho para céu fico com ganas de ser planeta.
- Mas que tipo de planeuta?
- Planeta do tipo normal.
- Com anéis ou sem?
- Sem. Por quê?
- Pra saber.
- Ah...
- É brabo.
- E o senhor acha que é grave o meu caso?
- Isso eu não tenho como informar, senhorita.
- E se fosse com anéis?
- Como?
- Com anéis do tipo rodado mesmo, com poeiras cósmicas...
- Também não ia saber.
- Ah...
- Ô só, agora se fosse...
- ...se fosse???
- ...se fosse bicicleuta eu bem que sabia.
- E saberia como?
- Ué, sabência daquelas que a gente nasce cheio.

Um ônibus passou e eles ficaram inertes no tempo. Como nada mais acontecia, ele resolveu confessar:

-Já quis ser bicicreta. Vermelha com os aro tudo de alumínu, banco preto com capinha macia. Mas é que eu que não queria ter garupa e nem buzina.
- Por quê?
- Porque barulho bagunça o silêncio. E garupa enfarda a gente, moça.
- Eu queria ser planeta.
- É, a senhorita disse inda pouco. Deve de gostar dos universos das galáxias dos cosmos do mundão a fora, né? Mas, sem querer ser intrometido, ia de sê planeta vazio ou com gente de três olho, quatro braço?
- Só pensei em ser planeta mesmo.
- Então é por isso que sofre dos nervo.
- Por quê?
- Oxi, por quê?! Fica prendendo os imaginário tudo dentro da cabeça, não fica dando nem idéia pros pensamento de modo de que eles ficam se empurrando lá dentro das mente tudo sem saber que tipo de planeta vai ser.

Ele respirou fundo e disse triunfante:
- Nem se preucupe não que seu dignósco eu já sei: moça, cê sofre de falta de acreditar até o fim.

Ela parou. Piscou três vezes e disse:

- Serão marrons.
- Quantos olhos?
- Uns 15.

14.4.10

Dentística

- Vó, o que houve na sua boca? Você está falando estranho...
- A tentatura estava me matchucanto, atchei melhor tirar.

Elinda falava assoprando a própria boca que agora parecia folgada, envergonhada pela falta dental, punha a mão escondendo. E conversava muito, no sofá da casa, fazendo concha com as mãos e protegendo a boca dos olhares. Olhares perversos daqueles que possuem sorriso. Aninha sonolenta e pacífica, dialogava sobre canjica, colírio, chuva e perigos dos quais tinha se livrado. Já era tarde da noite e o cansaço se espraiava sobre elas, como uma coberta grossa e macia.

Dormiram.

Amanhecia e Aninha relutava, espremendo os minutos, tentando alongá-los e permanecer dormindo, intactada. Inútil. O mundo já havia acordado e ouvia as vozes de seus familiares tagarelando assuntos matinais. “Pão? Quero. Café? Com leite. Banho! Já vou.” A porta do quarto se abriu:

- Ana, seis horas – disse sua mãe.
- Eu sei.

Saiu com o cabelo pro alto e os pés enterrados no chão, precisava ter dormido duas vezes mais. Com a letargia daqueles que se sentem estafados, observou um movimento significativo na casa. Seu pai abria e fechava bolsas; andava desconfiado, vasculhando tudo. Seu comportamento era curioso: agachava pela casa com a toalha na mão e com o cinto colocado só pela metade.

- Pai?
- Ana, sua avó perdeu a dentadura.
- Nossa, ontem ela me disse que tinha tirado, de noite.
- A gente tem que sair cedo hoje, ela tem consulta com o oftomologista. Ai meu Deus do céu!

Dez minutos se passaram. Nesse ponto a busca estava frenética, Elinda procurava em cima dos armários, ali, bem do lado do teto. Walter se esgueirava pelos cantos do mundo, lugares obscuros.

- Eu guardei! - berrou Elinda.
- Achou? - respondeu Walter, aliviado.
- Não, eu guardei ontem...numa bolsa...

Elinda apontou para meia dúzia de bolsas escancaradas e remexidas. Acontece que Elinda estava com catarata e não estava discernido muito o visual das coisas. Veja só que seu ponto principal de busca foi justamente a bolsa de malhar do seu neto Teorodo. Alvoroçados, os envolvidos resolveram bisbilhotar os pertences uns dos outros. A confusão maior se deu quando se depararam com a malinha de Gracinha. Gracinha fazia odontologia e sua mala rosa estava repleta de dentes, não tardou para que Elinda proferisse:

- Foi Gracinha! Ela pegou minha dentadura para levar para faculdade.

No começo todos riram, mas, pouco a pouco a dúvida foi se instalando nos corações e começaram a imaginar...imaginar.

- Gracinha! Gracinha, acorde!
- O que foi? - balbuciava como quem não tivesse domínio sobre suas próprias bochechas.
- Você pegou a dentadura da minha avó?
- Oi? - Gracinha levantou o tronco e abriu os olhos até a metade.
- Por engano, não sei...vc viu a dentadura?

Aquilo foi demais para a jovem, seu intelecto estava dominado pelo sono, repentinamente ela sucumbiu: virou para o lado e começou a roncar.

Não houve quem não cismasse, um cheiro de dissimulação e covardia emanava. Elinda apertava dos olhos, de boca encolhida. De repente falou, com um ar de índia feiticeira:

- Foi Gracinha.

Walter fez cara de deboche, mas, numa troca de olhares com Aninha, demonstrou preocupação. Chamou a filha mais velha para deliberarem.

-Você acha que foi Gracinha? - Walter disse em voz grave.
- Pai, ela já tem tantas dentaduras. Inclusive uma enorme, com dentes gigantes. Ganhou da colgate, lembra?
- Não tem mesmo necessidade de uma coisa dessas, ela mesma tem todos os dentes, até sisos inclusos.
- A ambição não tem limites, paizinho.

Elinda andava pela casa com ares de adivinha poderosa. Neste mesmo instante, Walter começou a chamar:

- Chiquita! Chiquita!
- Quem é essa, pai? - Teodoro estava visivelmente alarmado.
- É a dentatura da sua avó. Acho que ela fugiu.

Elinda despertou repentinamente:

- Fugiu. Será?
- Deve estar no ponto de ônibus agora, querendo ir para Barra de São João. - disse Walter.
- Tentando voltar para casa, coitada.
- Mas a Chiquita não sabe que é perigoso sair sozinha? Ainda mais ela, dentadura de mulher. - ele acrescentou.
- E já é uma senhora. Deve ter uns 40 anos.

Aninha não conseguia para de pensar como aqueles dentes postiços eram especiais. O sorriso da sua avó se fora. Só haveria espaço para seriedade. Não. Ela jurou que desvendaria este mistério. Acharia a dentatura Chiquita, não deixaria as gengivas de Elinda vazias.

continua...